“O homem que não tinha
nada acordou bem cedo
Com a luz do sol, já que não tem despertador.
Ele não tinha nada, então também não tinha medo
E foi pra luta como faz um bom trabalhador”
A curta filmagem de 3
e meio minutos de “O Homem que Não Tinha Nada”, do cantor Projota, é uma representação básica dessa produção
estética pós-modernista híbrida, pastiche, hiper-real, descentrada e fragmentada:
o videoclipe. A essa conclusão pode-se
chegar com uma análise segundo os parâmetros que classificam essa ate, considerada forte candidata à "hegemonia cultural do capitalismo tardio", nas palavras de Frederic Jamenson (1991).
O enredo é um protesto contra a
violência urbana que banalizou a vida nestes tempos incertos. A interpretação
da melodia, sobre a qual foi montado o roteiro do videoclipe, é do próprio Projota
com participação da cantora Negra Li para amenizar a carga psicológica pesada. Uma série de fatores positivos foi
juntada na complementação desse trabalho que na época se transformou no maior
sucesso do cantor. O sucesso foi rápido, tão logo veio a público o álbum “Ela Só
Quer Paz”, em 2014, com 16 músicas, das quais “O Homem que Não Tinha Nada” é parte.
Trata-se, como se percebe numa
primeira apreciação do trabalho, de uma narrativa aberta de montagem
livre e sem formalidades, atributos que se revelam óbvios no gênero, porém, não
fazem com que o todo caia no vulgar. Sabe manter-se linha definida por Andrew Goodwin, em que a ficção e a realidade se complementam, se negam e
se interpretam.
Complementam-se nas cenas em que
letra, imagens e música narram o dia a dia de Josué, um trabalhador comum de
periferia, pai de três filhos sem nenhuma perspectiva de futuro, embora feliz a
seu modo. Cenas de cortes rápidos ilustram o texto cantado enquanto, por seu
lado, a carga emocional da letra, da música, da forte e cadenciada batida
rítmica vai conduzindo ao limite máximo da tensão geral que se busca. Também
reforçam esse caminho as alternâncias das tomadas em cores sujas intercaladas
com as tomadas em preto e branco de maneira bem dosada na filmagem. A sequência é
controlada pelas participações da cantora Negra Li que entra com o refrão nos
momentos certos e caracteriza a proposta do trabalho: ser um protesto contra
a injustiça social do nosso tempo:
“O ser humano é falho, hoje mesmo eu
falhei,
Ninguém nasce sabendo
(ninguém), então me deixe tentar”
O objetivo da
sequência acima citada é atingir o clímax quando Josué sofre um atentado e morre. Nota-se ainda, em várias cenas, a influência
do cinema no trabalho analisado. Por exemplo, em uma encenação sobre um enredo
principal ligada diretamente ao texto da música, embora em videoclipe isso não
seja norma. Do mesmo modo, observa-se a linguagem cinematográfica quando
acontecem os cortes sequenciais presos quase que fielmente à narrativa lamentosa
do texto musicado; cinema puro, mas não necessariamente videoclipe.
O homem que não tinha
nada, tinha Marizete
Maria Flor, Marina, Mari, eu quero ser o menor
Um tinha nove, uma doze, outra dezessete
A de quarenta sempre foi o seu amor maior
Os demais elementos vão se apresentando
de maneira que fica bem definida a característica videoclipe, embora muitas vezes obedeça ao direcionamento da letra, música e sequência dos cortes.
Sai do comum graças às sequências em cores entremeadas por outras em preto e branco, pelas
ilustrações que às vezes fogem da fidelidade aos versos, com as tomadas visuais
e a alta velocidade das sequências filmadas, da sobreposição de cenas em vários
trechos, material também característico do videoclipe. Mais uma vez, ficção e
realidade se confundem para se completarem, como define Goodwin.
Finalizando, percebe-se,
grosso modo, que o efeito geral obtido pelo trabalho foi muito favorecido pela
competência do autor em escolher e utilizar os meios certos para a mensagem a
que se propôs. Por exemplo, o gênero musical rap do qual ele é um dos maiores
representantes no país. O rap não é o único, mas é o que ele domina e explora
com maestria seus predicados de música forte, de cadência pesada como uma caminhada firme de protesto, gênero que permite o uso de uma letra longa e provocadora ao gosto da massa
sofrida da população. Esses elementos realizaram com o videoclipe um casamento perfeito.
“O Homem que Não Tinha Nada” mostra-se ser um daqueles trabalhos
criados no momento certo, por isto atinge diretamente os sentimentos de quem o
aprecia: transforma-se em brado de revolta nos inconformados, em alento nos
sensíveis e um grito de socorro compreensível por todos. Isto se vê bem se vê
numa sequência de ilustrações de fundo quando Josué é vítima de um atentado. Há
queima de pneus pelos mais exaltados, choro inconformado família, passividade
de quem observa, impunidade a quem pratica e impotência dos vitimados, tudo
mostrado em poucos segundos.
As cinco normas propostas de Ann Kaplan para análise do gênero, entretanto,
não se completam no presente trabalho. Não há o niilismo nem o ultramoderno.
Mas, lá estão o social consciente, o clássico e o romântico em quantidade, o que
basta. Enfim, trata-se de um videoclipe; ora, normas!
O homem que não tinha
nada, agora já não tinha vida
Deixou pra trás três filhos e sua mulher
O povo queimou pneu, fechou a avenida
E escreveu no asfalto "saudade do Josué"
Saudade, Josué!