sábado, 11 de junho de 2016

Em homenagem a Maurício de Souza

“Eu esclevo estas maltlaçadas linhas pala dizel que molo de amoles pol você”, diria Cebolinha em carta a Mônica no Dia dos Namorados, se já não o dissera alguma vez para aquele coraçãozinho de pedra. Como o Maurício de Souza já publica a turma na fase Teen, posso imaginar um soneto em versos dodecassílabos (de doze sílabas) que o adolescente Cebola mandaria para a jovem amada:

Cholamingo do namolado não colespondido

Lá na escola até deixei de jogá bola.
Eu já nem blinco e até estudo com afinco.
Se levo blonca toda vez que faço cola,
É que eu fico no WatsApp até as cinco.

Falo co’a tulma no WatsApp pla não lê
Quando me canso de estudá o poltuguês.
Se vou dolmi sonho dileto com você
Que se negou a me beijá mais uma vez.

Me tilam salo a Magali e o Cascão
Polque soubelam que levei uma “coelhada”
Quando eu quis só segulá na sua mão

O chico Bento até me chama de “azalado”
E o Anjinho, esse então, ajuda em nada!
Diz que é anjo, mas cupido não é não!


Ofereço esta brincadeira literária a minha colega de academia Esther Rosado porque tenho certeza de que depois de ler essas “maltlaçadas linhas” ela dirá: “Que gracinha!”

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A leitura da moça

José Luiz Bednarski
Na postagem de 31 de maio, lancei um desafio aos colegas de academia para que fizessem uma análise “sherlockiana” do quadro “Moça com livro” do pintor Almeida Júnior reproduzido abaixo. O acadêmico José Luiz Bednarski respondeu com o texto abaixo intitulado “A leitura da moça”. Vamos aguardar um pouco a ver se chegam outras colaborações. Enquanto isso, você pode também enviar uma colaboração que vai dar um prêmio simbólico e um certificado de participação ao texto mais interessante. Leia instruções na postagem do dia 31.

 ^^^^ Ilustração proposta para análise
         
Eulália, enfim, encontrou um lugar tranquilo. A vista da cobertura é aprazível. De um lado do edifício Mansão do Vale, lobrigou o novo reservatório do SAAE, que armazena água pura e cristalina. Doutra banda, a paisagem era o improvável esqueleto da ampliação do Fórum, cujos rumores dão pela falta de gimbo.
          Pela primeira vez no ano, ali no topo do prédio onde morava, a jovem sentia-se livre. Seu perseguidor não poderia alcançá-la. Poderia ler em paz a nova coletânea de textos da Academia Jacarehyense de Letras e vagar pela imaginação de sacis, cordéis, coelhos azuis e o entrelaçar das almas na sublime canção do sonho acabado.
          O assédio começara no dia de sauna mista do Trianon. O olhar ominoso do homem coleava pelas estonteantes curvas ebúrneas de Eulália. Foi paixão imediata. O cinquentão passou a segui-la como uma sombra. Chamava a ruiva de Rapunzel e tentava tocar as longas melenas da moça assustada.
Inspirado pela Cantata de Natal, da janela do Museu, no Dia dos Namorados, declamou poemas arrebatadores de amor para a pretendida, que morava no segundo andar. A poesia era de Mário Werneck, mas o javardo disse que era dele próprio, tentando impressionar a presa encabulada, que fechou a janela.
Ela frequentava a Noite de Seresta Darcy Reis. Deixou de ir por causa do destabocado que convenceu Dona Telê a deixá-lo cantar Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda, de Lamartine Babo. Durante a apresentação, ele fixou o olhar na amada, que saiu à francesa.
Ela gostava de ler e pegava livros emprestados na biblioteca circulante Macedo Soares. Ele ficou sabendo e descolou um cargo comissionado na repartição, só para dar cargas e baixas com desvelo nas obras escolhidas. Acabou que Eulália nunca mais voltou e ele passou o período de propaganda eleitoral chacoalhando bandeira para o patrão, debaixo de tempestades e sol inclemente.

Ele era insistente, não se cansava e isso irritava a moça. Felizmente, depois de tanto tempo, a rapariga conseguia driblar o pretendente e afinal encontrou a paz de sua ausência. Mas a solidão inquietou: "Onde estará ele? Pensa em mim?".

terça-feira, 7 de junho de 2016

Um aperto no Tribunal do Juri

José Luiz Bednarski (*)


         O cotidiano do promotor substituto é não conviver com a rotina. A cada mês, ele é designado para uma comarca diferente, onde houver cargo vago. Cada local tem sua peculiaridade, até mesmo os processos judiciais são diferentes e as discrepâncias aumentam à medida que a cidade é mais afastada da Capital.

          Em Itapeva, São Paulo quase divisa com o Paraná, juízes e promotores almoçavam no fórum mesmo, cotizando-se para comprar os ingredientes e pagar uma excelente cozinheira. À noite, era mais difícil - só havia um lugar bom para jantar fora e a alternativa era encomendar pizza para entrega no hotel.
          O local era tão frio no inverno, que de manhã era preciso cutucar a crosta de gelo para conseguir abrir a janela do quarto. A comarca era muito grande, a maior do Estado de São Paulo, englobando cinco municípios. Não havia nenhuma cidade grande nos próximos cem quilômetros e a paisagem rural era basicamente constituída de extração de madeira, formando pilhas com quilômetros de extensão, uma visão bonita de tão diferente.
          A academia de ginástica também não tinha concorrência. Era sozinha no ramo e também a única da cidade com revistas de nudez masculina disponíveis para quem estivesse nas bicicletas ergométricas, a demonstrar sua natural propensão a atender melhor as atletas do sexo frágil e homossexuais, uma modernidade inimaginável para uma cidade de interior, há quase duas décadas.
Nos momentos de distância da família e excesso de serviço, o consolo do promotor substituto é pensar que nunca conheceria paragens tão pitorescas em outras ocasiões, pois o turismo é muito mais voltado para roteiros consagrados, como Balneário Camboriú e Paris.
Se Itapeva era um lugar, digamos, diferente, o que dizer de Iguape, simpática cidadezinha histórica esquecida no meio da selva tropical? Lá quase não passa carro, a bicicleta é o veículo de transporte utilizado pela maioria da população, pelas ruas sem sentido obrigatório de direção.
O juiz vivia há anos por ali e dizia que o paulistano vira caipira de vez quando começa a andar pelo meio da rua, em vez de ir pela calçada. Era o caso dele, em seu terno marrom fora de moda (bigodinho também) e com guarda-chuva e Bíblia à mão.
          O maior problema para o substituto é chegar despreparado às vésperas de sessão do tribunal do júri. O negócio é correr atrás das cópias e estudar no hotel todas as noites antes de dormir, para compensar o tempo perdido em relação ao advogado de defesa.
          O júri é ainda mais complicado quando é estreia para promotor tímido. E pode virar um pesadelo quando o juiz vai ao gabinete do ministério público no fim do primeiro dia e avisa que lá a sessão é transmitida ao vivo pelo rádio, coisas que só acontecem em Iguape. Enquanto os debates seguem acalorados, nos botecos esquentam as bolsas de aposta, pois tem hora que só apostar em número enjoa.
          O promotor nem se levantou para fazer a sustentação, com vergonha do plenário lotado. Para entrar ou sair, só com senha e aguardando fila. A sorte dele é que o réu já estava condenado por antecipação, já que o caso era muito rumoroso e causou revolta na pacata cidade, à época do crime. Era só falar bom dia e os jurados já teriam condenado o criminoso. Por via das dúvidas, só pra garantir, o juiz deixou de lado a imparcialidade - interrogou o réu de costas para o advogado. Cada vez que o suspeito entrava em contradição, o magistrado levantava as sobrancelhas para os sete jurados terem certeza de que o assassino estava mentindo. Juntando a isso a inépcia do advogado de defesa, escolhido a dedo pelo juiz zeloso quanto à segurança pública da urbe, não deu outra – a condenação saiu por unanimidade.
          No entanto, o promotor substituto não tinha onde, companhia e nem tempo para comemorar. Na semana seguinte, outro júri estava marcado e daquela vez seria mais difícil, pelas circunstâncias. Pelo menos, já haviam passado o nervosismo e a expectativa da estreia. Debates realizados e findos os trabalhos em plenário, o juiz se recolheu ao seu gabinete para bater os quesitos à máquina (ele era definitivamente das antigas). Enquanto isso, o público se dispersou para tomar água e esticar as pernas. Nesse ínterim, a rádio passava os comerciais mais caros da semana (dado o ibope que batia recordes a cada julgamento) e os jurados foram recolhidos incomunicáveis à sala secreta. Demonstrando patente profissionalismo, defensor e promotor conheciam-se melhor e conversavam amenidades no corredor, aguardando a hora da votação. Nisso chega um senhor baixinho, que pede licença para cumprimentar os tribunos e faz um relato desconcertante:
          Os senhores me desculpem a simplicidade. Sou um homem humilde, crescido no sertão de Alagoas. Gosto de júri desde criança. Cada palavra linda. Nem todas compreendo. Mas é tão bonito ver o ritual do julgamento, as roupas pretas, a formalidade do juiz. E é cada discurso supimpa do promotor e do advogado. A gente aprende muito. Eu tinha seis anos e o júri ia de cidade em cidade lá onde eu morava. Eu montava no jumento e ia atrás do júri. Chegava em casa e apanhava de mamãe, que me mandava trabalhar. Sou açougueiro, só que nunca perdi um julgamento. Fecho o açougue mais cedo quando tem sessão e vou. Aliás, parabéns ao doutor promotor no júri passado, foi muito bem. Foi tão emocionante, que a vontade de urinar apertava, mas eu não queria perder um lance. Cheguei cedo para pegar lugar na primeira fila. Sabia que seu eu saísse perdia o assento e daí só pelo rádio, que não tem a mesma graça. Então, não tive dúvida. Fiz xixi na calça mesmo, Deus me perdoe!

(*) José Luiz Bednarski é promotor de Justiça e da Cidadania em Jacareí (SP) e membro da Academia  Jacarehyense de Letras

sábado, 4 de junho de 2016

Há uma tocha no fim do Turi

Taubaté, pintada por Debret

Em artigo brilhante publicado na coluna semanal “O quinto poder”, no Diário de Jacareí, o escritor José Luiz Bednarski, da Academia Jacarehyense de Letras, destaca a contribuição da terra que já foi do biscouto, de Antônio Afonso e das montanhas azuis (segundo pintura do neoclássico Jean-Baptiste Debret) no destino da nação brasileira. Graças a um esforço hoje mais consciente da população culta, o trecho paulista atualmente denominado RMVale (Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte) está sendo revisto em sua justa dimensão pelos historiadores amantes da verdade.

Como já citou Bednarski, também foi de Jacareí que saiu o personagem, cognominado “Nelson” (por questões de segurança), mencionado por ele na coluna, de 28 de maio, especialmente para descobrir e denunciar que Bangcoc, na Tailândia era o esconderijo do malfadado ex-“ordenança” de Fernando Collor de Mello, Paulo César Farias, homem mais procurado pela justiça brasileira da época.  Sim, digo “especialmente” não que tenha sido por vontade dele ou da empresa em que trabalhava e o mandou para aquele país, como relata a história oficial. Mas, por determinação do destino que sempre floreia os fatos antes de pregar-nos peças. Ou você acha que alguém, justamente um jacareiense, iria a serviço de quem quer que fosse para a Tailândia para, num momento de folga, assistir a um show de danças folclóricas à toa? O destino imita a literatura! Tanto que PC Faria, aparentemente do nada, decidiu expor-se publicamente e ir ao folguedo. Caiu na armadilha da sorte. Curioso que ele andava sempre acompanhado da esposa e de uma vidente (!), como relata Bednarski na crônica. Ou a vidente era uma farsante ou estava a serviço de um destino irônico. Faça você também literatura e escolha uma das hipóteses.


Mas, falávamos de momentos importantes em que a cidade, segundo o escritor, “move a roda verde-amarela da história”. Se Jacareí teve participação ocasional no episódio em que o lendário deputado Tenório Cavalcanti, o homem da capa preta, envolveu-se no assassinato de um policial rodoviário na Rodovia Presidente Dutra, também o teve na independência do Brasil com a passagem de Dom Pedro I pela cidade antes de dar o grito histórico. De arremate, Bednarski fala da tocha olímpica, símbolo das Olimpíadas, – que beira a tornar-se “pecha olímpica” a depender da situação pela qual o país estará passando em julho deste ano quando sediar o evento (que Zeus a proteja).

Porém, o literato destino, ao qual nos referimos neste texto, envia-nos novos sinais de que continua prestigiando a terra afonsina: coloca em sintonia Bednarski e a psicanalista e professora e  Esther Rosado, duas magnas expressões literárias de Jacareí. Coincidentemente nesta mesma semana esses dois articulistas que não se veem há um bom tempo escreveram em dois jornais diferentes da cidade e evocaram no mesmo dia, nas respectivas colunas semanais, a memória de dois grandes pintores nascidos em Paris e que também visitaram Jacareí: o neoclássico Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e o impressionista Claude Monet (1840-1926).

Debret viera a convite de Dom João VI para fundar no Brasil a Academia Imperial de Belas Artes, hoje Escola de Belas Artes, incorporada à UFERJ-(Universidade Federal do Rio de Janeiro). O pintor, em certa época do período de 15 anos que viveu no Brasil (1816 a 1831), retratou várias cidades do Vale do Paraíba inclusive Jacareí, conforme conta-nos Bednarski na coluna.

Monet, por sua vez, esteve em Jacareí esta semana por inspiração de Esther Rosado e cumplicidade do marido. Enquanto Nelson fingia fotografar um ipê cor de rosa certa manhã de suave sol outonal, próximo ao ribeirão do Turi, Monet de cima da mesma árvore enviava para a escritora pétalas de flor de ipê que pareciam (para quem as visse) desprender sozinhas da árvore e cair no local em que ela, Esther, no carro, esperava pelo marido. A escritora conta que brincava de “tornar-se absolutamente feliz” se uma caísse em suas mãos. “Na ficção podemos tudo”, justificou. Ela deixou para contar ao Nelson sobre a brincadeira da sorte somente por intermédio da citada crônica do jornal quando chegasse às mãos dele, mas Nelson já sabia de tudo antes de ler a crônica: havia sido ele quem combinou a brincadeira com Monet para surpreender a mulher. Pois é, Esther, o destino é ficcionista.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Maneira sherlockiana de apreciar arte. Participe


Moça com livro, de Almeida Júnior (clique na imagem para aumentá-la)


— “Como está?” — disse Sherlock Holmes cordialmente ao ser apresentado ao Dr. Watson pelo amigo comum Stamford — “Vejo que andou pelo Afeganistão”, completou Holmes que nunca antes havia visto o médico nem nunca soube da sua existência. Dias mais tarde o detetive explicou a “adivinhação” ao intrigado agora amigo (os dois passaram a morar juntos no famoso endereço da Baker Street, 221B, em Londres). Tratava-se de mais um ato de “Ciência da dedução” praticado pelo mais famoso detetive londrino.

Holmes afirmava categoricamente que um homem observador pode penetrar nos mais íntimos pensamentos de outra pessoa. Bastava para isso um exame preciso de uma expressão momentânea, da contração de um músculo ou uma olhadela do interlocutor. “A partir de uma gota d’água”, explicou, um praticante da ciência da dedução, como ele, “pode inferir a possibilidade de um Oceano Atlântico ou das cataratas do Niágara, sem ter visto ou ouvido falar de qualquer dos dois.

Assim, revelou porque adivinhara, quando o viu pela primeira vez, que Watson tinha estado no Afeganistão: Veio-me à mente que ali estava um homem com jeito de médico, mas com ar de militar. Claramente um médico do Exército, portanto ele acaba de chegar dos trópicos, pois seu rosto está escuro e essa não é a tonalidade natural de sua face, pois seus punhos são claros. Ele passou por penúrias e doenças, como seu rosto abatido revela sem dúvidas. Foi ferido no braço esquerdo, pois o mantém numa posição rígida e pouco natural. Onde nos trópicos um médico do Exército poderia ter encontrado tantas privações e sido ferido no braço? Claramente no Afeganistão. Todo o encadeamento de ideias não demandou um segundo. Comentei então que você vinha do Afeganistão e o deixei pasmo”, completou.

Por que relembrei essa passagem do livro “Um estudo em vermelho”, do escritor Arthur Conan Doyle, quando ele relata o primeiro encontro de Sherlock Holmes com o Doutor Watson? Porque tive a oportunidade de conhecer dias atrás a maneira sherlockiana de apreciar arte pela “Ciência da dedução”, praticada no livro pelo detetive e quero passá-la para você em tom de desafio. Consiste no seguinte:
Faça uma análise do quadro que ilustra esta matéria - - de Almeida Júnior à maneira sherlockiana e mande para o e-mail desafio350@gmail.com (copie daqui e cole no e-mail), pode ser como anexo ou no corpo do próprio e-mail e que tenha no máximo 350 palavras. Os melhores eu vou publicando neste blog na medida em que vão chegando. Depois de certo tempo, marcamos a data do encerramento. O campeão terá a análise publicada no blog e num jornal impresso de Jacareí. Pode ser uma análise séria ou em tom jocoso, desde que seja criativa e de bom gosto. Vai encarar? Comece, então a escrever.


Para esquentar e servir de exemplo, segue abaixo uma análise semelhante à proposta feita do quadro “Caipira picando fumo”, do mesmo Almeida Júnior. Mãos à obra.

 A luz incidente, quase a pino, retratada na composição, sugere o horário entre 11 e 13 horas. O caipira picando fumo, ritual demorado, reforça a chance de que já tenha almoçado. 
A temperatura está de amena para fria. Veja as mangas compridas e uma segunda calça vestida por baixo. A camisa aberta ao peito, talvez,para refrescar àquela hora de sol mais forte. Provavelmente ele tenha enfrentado em pasto fechado para pegar algum animal de abate. Nota-se as partes inferiores das calças e as pontas das mangas da camisa manchadas de um vermelho que pode ser sangue do animal abatido. Essa probabilidade é reforçada pelo tamanho desproporcional da faca usada para picar fumo. 
O personagem vive só. Parece viúvo ou separado da mulher por iniciativa dela. Isso explicaria o ar meio tristonho e pensativo na fisionomia dele. Tal possibilidade é reforçada pelo total desleixo tanto para com ele e pela conservação da casa de pau a pique. Na moradia,parte do reboco está caída ou é inexistente e o barro aparente denuncia o tempo em que a situação está assim. Mulher nenhuma deixaria as coisas permanecerem desse jeito sem tomar uma providência de reparo.
Veja a escada. Ela é formada por pedaços grandes de tronco de árvore cortados aleatoriamente em tamanhos disformes e com acabamento suficiente apenas para que alguém passe por cima deles. Vê-se que o degrau menor está quase no nível do segundo. É um perigo descer por uma escada desse tipo. E o homem bebe. Essa ponta de nariz mais avermelhada e as pálpebras “pesadas” denunciam a bebida.
O restante segue sem qualquer alinhamento. Esses madeiros estão escorados sem nenhum critério por troncos menores. Há dois buracos grandes, um na parede outro ao lado da escada cujo reparo teria sido fácil já que a matéria prima é terra misturada com água. Não há indícios de que venta. Então, as palhas de milho secas, para fazer cigarros, espalhadas pelo chão à volta do caipira é displicência mesmo, reforçada pela porta da casa semiaberta.
(340 palavras)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Calçadas formidáveis, pedaços de mau caminho e mesóclises do “presidento”

Calçada com ladrilhos portugueses: quebrou, estragou

Naquele tempo, anos 1960, “pedaço de mau caminho” era referência "gracinhosa" a mulher sedutora. Hoje leio a expressão usada como crítica ferina, embora procedente, em crônica do acadêmico José Luiz Bednarski na coluna O quinto poder”, publicada no Diário de Jacareí. O autor refere-se às calçadas esburacadas ou descuidadas na região central da terra afonsina¹, mas poderia ser de qualquer outro município. Todas as ruas antigas de cidades interioranas sofrem de males como estreiteza de ruas, calçadas em que mal passam duas pessoas e desinteresse do poder público e de moradores em cuidar delas. Dos moradores também. O domínio do espaço é do município que as constrói, mas a obrigação de conservá-las é dos moradores. As prefeituras têm ainda, em muitos casos, de optar entre facilitar a passagem aos automóveis ou aos pedestres. Os governantes antepassados parece que imaginavam que o tempo das carroças nunca terminariam.

Depois vieram aqueles ladrilhos portugueses que precisam ser colocados de caco em caco no passeio público por mãos que entendem, ou melhor, entendiam da arte. Essas pedras com status de ladrilhos acabam por se tornar “ladrilhos brasileiros” na medida em que se quebram ou são quebrados e ninguém acerta mais a situação. Os reparos como mostram fotos, são desastrosos. Procure no “Google” em “calçadas ruins” e, depois que abrir, clique em “imagens”² para conferir como Bednarski foi bonzinho no que escreveu no jornal. Parece que nenhum “calçadeiro”, se é que existe a função, acerta esse trabalho hoje em dia. Em muitos casos passam uma camada de reboco por cima do estrago e “estamos conversados”. Em outros locais são calçadas muito inclinadas ou em degraus ou, ainda, estranguladas por um poste ou uma árvore. É quase impossível andar a pé por elas. Há também calçadas desencontradas, outras obstruídas como se “passeio público” fosse apenas força de expressão e não um substantivo concreto, embora quebrado na prática. As cidades estão cheias desses “pedaços de mau caminho” como as denominam com propriedade o colunista acadêmico.

 A intenção deste artigo era, inicialmente, mostrar como o tempo muda o sentido das palavras. “Formidável”, quando eu era estudante do ensino fundamental na primeira metade do século passado (1947, por aí) significava “horroroso, horrível, assustador, pavoroso, amedrontador”. Hoje significa “impressionante, excelente, fantástico, que merece admiração pela sua excelência”, como registram os dicionários. "Passeio público" é palavra que parece seguir caminho inverso. A diferença é que naquele tempo fenômenos assim (mudança de sentido das palavras) eram raros e muitos até se tornavam curiosidades para estudos em aulas de português ("linguagem", dizia-se na época). Como se hoje ao invés de consertarmos as calçadas mudássemos o nome delas para, digamos, “passagens radicais” e ficaria tudo bem.

Até hoje, governantes de qualquer dos níveis não tinham mandatos ameaçados por surrupiar dinheiro público, descuidar das calçadas ou da linguagem. Durante anos ouvimos, inertes, gente graúda e servil falar “presidenta”, “mulher sapiens”, “ocê” e barbaridades do gênero. Foi preciso a descoberta de um escândalo como nunca antes visto neste país ameaçar o futuro de nossos filhos e netos para um início de reação.

Como já foi afastada uma “presidenta” em nome do descuido para com o caixa do tesouro, de quebra, temos um “presidento” que diz castiçamente “consertá-lo-ei” e outras mesóclises do purismo linguístico, é de se concluir que, pela lógica, passaremos a ter, pelo menos, calçadas melhores nas vias públicas do interior. Acho que o mundo ainda tem jeito, Bednarski. 
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¹Terra afonsina -  alusão a Antônio Afonso, suposto fundador de Jacareí.
²Ou copie e cole a linha seguinte no campo de endereçamento:  https://www.google.com.br/search?q=cal%C3%A7adas+ruins&espv=2&biw=780&bih=404&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwi16c_zvfrMAhWGvJAKHVDPBHUQ_AUIBigB 

sábado, 21 de maio de 2016

O deputado devolve potinhos vazios



Se existe uma coisa que me mata de vergonha é me sentir inoportuno. Há cerca de dois meses, fui recebido por Esther e Doutor Nelson Rosado na aconchegante vivenda de ambos em Jacareí. Em se tratando desse casal, escreve-se vivenda mesmo – no mínimo morada – para dar ideia do clima local. Assim, dizia eu, fui recepcionado nessa morada onde convivem flores, folhagens decorativas, pássaros cantantes, borboletas coloridas e duendes inspiradores de fantasias literárias.

Parei pouco. O tempo necessário para uma pequena entrevista com Nelson, policiando-me para que embalado na conversa não perdesse a noção do tempo. Não queria me sentir atrapalhando, pois, quando cheguei, havia outro visitante ilustre na casa, mais o filho do casal. Demorei pouquinho mais que o necessário para entrevistar o promotor. Terminado, anunciei que estava de saída e, sob protestos elegantes de Esther e Nelson, na despedida tive grata surpresa: ofereceram-me levar doces feitos por eles acondicionados em dois potinhos que me emprestavam. Lembrei-me, nostálgico, que no século passado era comum esse gesto de brindar uma visita à saída com guloseima feita em casa, uma prática que prolongava o prazer da visita.

A satisfação da visita só terminava na devolução das vasilhas, no meu caso os potinhos. Pelo caminho rememorei essas práticas que impunha regras gostosas de cumpri-las. Exemplo? jamais devolver os potinhos vazios. Deveria fazê-lo com petiscos à altura. Perdeu-se muito desse costume, infelizmente. As pessoas cada vez menos recebem potinhos com doçuras quando vão à casa de alguém. O ritual dessas hoje raras visitações de cortesia ficou mais pobre. A gente percebe isso no reflexo em seus textos mais recentes da Esther. Ela não tem mais escrito, sonhadora, sobre saxofonistas solitários tocando numa tarde ensolarada na calçada em frente ao Banco do Brasil para quebrar a chatice do trânsito engarrafado.

Ao contrário, li, dia destes, um texto em que Esther fazia críticas à situação atual do país e citava Cícero, em Latim, claro, para dizer que o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, abusa demais de nossa paciência ao negar evidentes faltas graves cometidas (Esbravejar em latim é chique demais). Pois é, Esther, está difícil até escolher a iguaria para devolver nas embalagens. Eu que o diga! Acho que Cunha devolve vazios os potinhos que lhe emprestam. Se é que se lembra de devolvê-los.