quinta-feira, 18 de maio de 2017

O HOMEM QUE NÃO TINHA NADA - Projota


“O homem que não tinha nada acordou bem cedo
Com a luz do sol, já que não tem despertador.
Ele não tinha nada, então também não tinha medo
E foi pra luta como faz um bom trabalhador”

A curta filmagem de 3 e meio minutos de “O Homem que Não Tinha Nada”, do cantor Projota, é  uma representação básica dessa produção estética pós-modernista híbrida, pastiche, hiper-real, descentrada e fragmentada: o videoclipe.  A essa conclusão pode-se chegar com uma análise segundo os parâmetros que classificam essa ate, considerada forte candidata à "hegemonia cultural do capitalismo tardio", nas palavras de Frederic Jamenson (1991).


O enredo é um protesto contra a violência urbana que banalizou a vida nestes tempos incertos. A interpretação da melodia, sobre a qual foi montado o roteiro do videoclipe, é do próprio Projota com participação da cantora Negra Li para amenizar a carga psicológica pesada. Uma série de fatores positivos foi juntada na complementação desse trabalho que na época se transformou no maior sucesso do cantor. O sucesso foi rápido, tão logo veio a público o álbum “Ela Só Quer Paz”, em 2014, com 16 músicas, das quais “O Homem que Não Tinha Nada” é parte.

Trata-se, como se percebe numa primeira apreciação do trabalho, de uma narrativa aberta de montagem livre e sem formalidades, atributos que se revelam óbvios no gênero, porém, não fazem com que o todo caia no vulgar. Sabe manter-se linha definida por Andrew Goodwin, em que a ficção e a realidade se complementam, se negam e se interpretam.

Complementam-se nas cenas em que letra, imagens e música narram o dia a dia de Josué, um trabalhador comum de periferia, pai de três filhos sem nenhuma perspectiva de futuro, embora feliz a seu modo. Cenas de cortes rápidos ilustram o texto cantado enquanto, por seu lado, a carga emocional da letra, da música, da forte e cadenciada batida rítmica vai conduzindo ao limite máximo da tensão geral que se busca. Também reforçam esse caminho as alternâncias das tomadas em cores sujas intercaladas com as tomadas em preto e branco de maneira bem dosada na filmagem. A sequência é controlada pelas participações da cantora Negra Li que entra com o refrão nos momentos certos e caracteriza a proposta do trabalho: ser um protesto contra a injustiça social do nosso tempo:

        “O ser humano é falho, hoje mesmo eu falhei,
          Ninguém nasce sabendo (ninguém), então me deixe tentar”


O objetivo da sequência acima citada é atingir o clímax quando Josué sofre um atentado e morre.  Nota-se ainda, em várias cenas, a influência do cinema no trabalho analisado. Por exemplo, em uma encenação sobre um enredo principal ligada diretamente ao texto da música, embora em videoclipe isso não seja norma. Do mesmo modo, observa-se a linguagem cinematográfica quando acontecem os cortes sequenciais presos quase que fielmente à narrativa lamentosa do texto musicado; cinema puro, mas não necessariamente videoclipe.


O homem que não tinha nada, tinha Marizete
              Maria Flor, Marina, Mari, eu quero ser o menor
              Um tinha nove, uma doze, outra dezessete
              A de quarenta sempre foi o seu amor maior


Os demais elementos vão se apresentando de maneira que fica bem definida a característica videoclipe, embora muitas vezes obedeça ao direcionamento da letra, música e sequência dos cortes. Sai do comum graças às sequências em cores entremeadas por outras em preto e branco, pelas ilustrações que às vezes fogem da fidelidade aos versos, com as tomadas visuais e a alta velocidade das sequências filmadas, da sobreposição de cenas em vários trechos, material também característico do videoclipe. Mais uma vez, ficção e realidade se confundem para se completarem, como define Goodwin.

Finalizando, percebe-se, grosso modo, que o efeito geral obtido pelo trabalho foi muito favorecido pela competência do autor em escolher e utilizar os meios certos para a mensagem a que se propôs. Por exemplo, o gênero musical rap do qual ele é um dos maiores representantes no país. O rap não é o único, mas é o que ele domina e explora com maestria seus predicados de música forte, de cadência pesada como uma caminhada firme de protesto, gênero que permite o uso de uma letra longa e provocadora ao gosto da massa sofrida da população. Esses elementos realizaram com o videoclipe um casamento perfeito.




“O Homem que Não Tinha Nada” mostra-se ser um daqueles trabalhos criados no momento certo, por isto atinge diretamente os sentimentos de quem o aprecia: transforma-se em brado de revolta nos inconformados, em alento nos sensíveis e um grito de socorro compreensível por todos. Isto se vê bem se vê numa sequência de ilustrações de fundo quando Josué é vítima de um atentado. Há queima de pneus pelos mais exaltados, choro inconformado família, passividade de quem observa, impunidade a quem pratica e impotência dos vitimados, tudo mostrado em poucos segundos.

As cinco normas propostas de Ann Kaplan para análise do gênero, entretanto, não se completam no presente trabalho. Não há o niilismo nem o ultramoderno. Mas, lá estão o social consciente, o clássico e o romântico em quantidade, o que basta. Enfim, trata-se de um videoclipe; ora, normas!



O homem que não tinha nada, agora já não tinha vida
Deixou pra trás três filhos e sua mulher
O povo queimou pneu, fechou a avenida
E escreveu no asfalto "saudade do Josué"
Saudade, Josué!

 



domingo, 14 de maio de 2017

“O futuro sempre está semprecomeçando agora”

         

Beatriz: enredo surpreendente


A última vez que me recordo ter sentido forte impacto provocado por um texto de ficção faz mais de dois anos. Foi ao ler pelo celular as primeiras páginas de certo livro eletrônico. Eu me dirigia de ônibus a São José dos Campos e, a fim de matar o tempo, rolava textos e imagens pela tela do aparelho. A certa altura surgem umas páginas iniciais de um livro, desses cujos trechos são exibidos como amostra; nem me lembro do nome. Fui atraído pelo enredo e traído por minha defesa antimarketing eletrônico e passei a ler.

Era na Idade Média. O personagem narrador, um jovem soldado, aguardava morte certa, postado em um ponto estratégico da cidadela que lhe cabia defender. O inimigo, que invadiria o local a qualquer momento, era numericamente maior e já tinha dizimado quase todo o exército aliado em seguidos confrontos. Restava somente aquele frágil e esgotado contingente de homens ali abandonados. Morreria lutando, sem alternativa.


A diferença do livro era a narrativa ser feita do ponto de vista de um simples soldado, o que foge ao comum dos textos do gênero. Normalmente, tais histórias são contadas a partir de um comandante, de uma pessoa de destaque no cenário descrito ou de um narrador onipresente e neutro. Nessa obra, não. O narrador era um raso militar abnegado e solitário a passar pela experiência de uma fatalidade prevista. O soldado revelava suas fraquezas disfarçadas ou sufocadas por duras crises de consciência que lhe cobravam uma inumana valentia imposta pelo “dever”. Muito bem narrada, a construção literária fazia, de imediato, o leitor incorporar-se no personagem angustiado e sofrer com ele. Numa leitura, quando isto acontece, o leitor está fisgado para ler o livro todo. 

Há menos de uma semana, fui surpreendido por outro texto impactante. A jovem escritora Beatriz Barreto, em visita que fez à Academia Jacarehyense de Letras, me deu de presente um exemplar de seu primeiro livro “Agora”, publicado em 2016 pela Editora Coerência. Dois dias depois, em manhã tranquila de sábado, pude ler o trabalho. Não passei do segundo capítulo, pouco mais de 20 páginas, para ter a mesma sensação do texto lido no ônibus a caminho de São José. Precisei, então, de me predispor para ‘enfrentar’ as emoções que o início da leitura já sinalizava que certamente viriam.

O personagem narrador, Marco, é um menino de quatro anos, extremamente apegado à irmãzinha Maria, dois anos mais nova. Ambos moram só com a mãe. Certo dia, sem qualquer motivo aparente para ele, ambos são levados por ela para um “passeio surpresa” e abandonados em um orfanato. Nunca mais viram a mãe nem souberam dela.

Não vou contar toda a história, não vem ao caso. O objetivo é comentar o novo e agradável encontro com aquela arquitetura literária diferente que me pegou pelo texto lido no ônibus, conforme contei no início. A narração da história é toda feita pelo menino abandonado pela mãe, com a responsabilidade que se auto impôs de cuidar da irmãzinha, vivenciando o dia a dia de um orfanato e a ausência de um pai que jamais conhecera.

Apesar de tudo, Marco é um garoto cheio de sonhos e esperanças. Essa ideia de ver o mundo através do inusitado pega o leitor e o faz encarnar o personagem principal e vivenciar a história, como se o fato acontecesse consigo. Beatriz Barreto, hoje com 13 anos, escreveu o livro aos 12 e nele deixa a mensagem que nunca desistamos de nossos sonhos: “O futuro sempre está começando agora”, diz. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Prova de nascimento

Conto de BVeloso

<< "É uma escrita de novata", disse Anacleto

Anacleto Lopes de Castro nunca havia lido com a devida atenção a própria certidão de nascimento até a noite de 9 de maio de 2017, uma terça-feira. O motivo do desarquivamento da “peça de museu”, como ele a chamava, foi a tarefa proposta pelo professor Leo Mandi, da oficina de Literatura e Sarau da Fundação Cultural de Jacarehy, da qual ele participava.
“O que pode haver de interessante numa certidão de nascimento do século passado preenchida à mão?” – comentou Anacleto em casa à noite para a mulher Anita, enquanto ela servia a janta. “Justamente o fato de ser um documento do século passado e preenchido à mão”, responde a mulher, enquanto colocava na mesa a tigela com caldo de quirerinha e calabresa, bem apropriado para encarar o frio daquela noite de outono.
Anita, veterana professora do ensino médio da rede pública, estava acostumada a lidar com resmungos de alunos que sofrem de leseira mental quando se veem à frente de uma folha em branco de papel com um tema para escrever. Em situação semelhante, a coisa não muda quando se trata de marido. “Ao contrário, piora”, sentenciou ela quando percebeu que Anacleto procurava era um jeito de empurrar o trabalho pra ela fazer. “Nem por decreto, Anacleto!”, deixou claro Anita para frustrar de vez a tentativa de empurrar a redação para que ela produzisse, e concluiu: “já fiz muito em lhe dar uma pista; o resto é com você”.
“Que pista você me deu?”, mulher – perguntou, na intenção de agarrar-se a qualquer motivo que o livrasse da obrigação. “Certidões são iguais; mudam os nomes, mas, viu uma viu todas!” – resmungou. Impaciente, ela responde como quem ralha com um aluno rebelde: “a grafologia! O que mais poderia ser? Analise a grafia de quem preencheu o documento à mão, por exemplo. Está aí uma chance de você mostrar que ainda é bom nisso”, provocou Anita.
“De novo?! Provo-lhe tal coisa desde que nos conhecemos”, disse Anacleto sem esconder o tom de malícia na voz. Ele desde há muito era estudioso de grafologia, ciência que sempre levou a sério. De fato, ambos haviam se conhecido, anos atrás, em uma análise que Anacleto fizera de um formulário de proposta de emprego que Anita acabava de preencher à mão, numa empresa. Ele foi o entrevistador. Pelas qualidades de Anita, “cientificamente reveladas”, como ele explicara depois ao justificar o interesse não apenas de aprová-la para o trabalho, mas de pedi-la em casamento meses depois. Daí o motivo da provocação da mulher naquele momento. Anacleto, entretanto, gostou da ideia de analisar a letra de quem preenchera sua certidão de nascimento e a levou consigo para a mesa. Enquanto tomava a sopa ele olha distraidamente o documento enquanto comenta: “Era uma mulher, bonita, inteligente, irresistivelmente sedutora...”, diz.
Anita volta-se quase agressiva para dizer: “Ei! Desde quando a letra de uma pessoa numa simples certidão revela tudo isso com esses detalhes?” Anacleto responde sem levantar os olhos do papel: “Estou falando de você”, naquela entrevista de emprego. “Ah!”, foi a única coisa que Anita conseguiu dizer.
O marido continua: “Annn! Estava ansiosa, muito ansiosa...”, afirmou. Anita reage de novo, agora desajeitada: “Nada! Eu estava bem preparada para aquela entrevista”. Anacleto a corrige: “Agora, estou falando da mulher que preencheu esta certidão; está claro que é mulher, ela assina em baixo, mas a ansiedade é confirmada pela sua letra inclinada para a esquerda, um tanto espremida em algumas palavras e não em outras; significa que escrevinhação não é o normal de sua grafia, venha aqui ver”, insistiu em tom conciliador.
Anita foi até ele para juntos examinarem o documento. “Trata-se de uma substituta ou novata, Anita. Não há uniformidade na escrita, própria dos mais experientes. Eu acho..."
Anacleto não conseguiu prosseguir. Apesar dos anos, Anita continuava bonita e irresistível. Ela agora o enlaçava por detrás da cadeira, de pé, braços apoiados nos ombros dele, e toma-lhe a palavra:
“...não sei o que você acha, meu bem; de minha parte, não preciso de uma certidão para provar que você existe. Basta senti-lo aqui junto a mim”, diz carinhosa. “Tá bom, vou dizer isso ao professor Leo amanhã, pra justificar por que não fiz a redação”, apressou-se Anacleto procurando retomar o domínio da situação, e olhando para ela: “Suponho que eu vou ficar muito ocupado a partir de agora”, insinuou.
“Nã-hã!” cortou logo Anita. “Primeiro a certidão, depois a diversão!”, sentenciou. “Mas, e a certeza de que eu existo, que você disse, não conta?!”, protestou Anacleto.
“Não para efeitos didáticos”, respondeu Anita safando-se do Romeu para recolher a louça da mesa. E encerrou o assunto.
Mulheres são complicadas...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A poesia do Pátio dos Trilhos


Minha volta no tempo aconteceu no início da noite de uma quarta-feira de maio de 2017. Eu participava de uma oficina de literatura ministrada na velha estação ferroviária de Jacareí (SP) quando o instrutor lançou o desafio geral: "escreva o que você vê da cadeira onde está sentado".

Estávamos na dependência onde fora a bilheteria. Em 1998 a MRS Logística, que adquiriu a concessão da ferrovia da Rede Ferroviária Federal, extinguiu o trem de passageiros e logo em seguida o ramal de Jacareí. A estação ficou abandonada até passar para a Fundação Cultural que se instalou em três prédios situados no hoje Pátio dos Trilhos. Um deles era o que estávamos.

A sala é grande, alta, com pé direito de quatro metros e portas de madeira escura maciça e envernizada, com caixilhos fixos na parte superior para ajudar na iluminação do ambiente. Os ladrilhos importados (provavelmente portugueses), compunham o velho piso. Boa parte deles substituída por um cimentado rústico, ainda resistem ao passar dos anos sem perder a dignidade de dar o toque decorativo à antiga sala dos bilhetes.

Demorei alguns minutos na escrita sobre aquele piso que me remetia ao passado, quando fui interrompido por um burburinho frenético de pessoas, chiado de caldeira, música de viola, troca de cumprimentos. Olho para a sala e vejo a minha frente o bilheteiro a vender passagens aos últimos passageiros que iam embarcar num trem ali estacionado, cuja presença dei-me conta por uma parte dos ruídos, pois os janelões estavam fechados. O homem executava o trabalho com rapidez e concentração, mas sem perder os toques de cortesia típicos de quem leva a sério o cargo que exerce. "Pois não, doutor Aníbal, aqui está sua passagem, boa viagem", dizia para um e, logo em seguida, para outra, "olá, dona Dorinha! Não fique aflita, o trem espera! Pronto, está aqui sua passagem... Oh! não tem mais trocado? Dou um jeito: pronto, aqui está seu troco, boa viagem, passar bem!"

Olho através do corredor à minha frente, que dá acesso ao saguão principal e noto que o movimento de passantes diminuía gradativamente: o vendedor de "biscoutos", parara de gritar o produto, o violeiro acabara de cantar a última música e guardava o instrumento quando ouviu-se um apito agudo e longo; era o segundo: "o trem vai sair", pensei. 

Levantei a cabeça bruscamente e vi que na sala todos colegas da oficina há tinham terminado o próprio texto me olhavam já com certa impaciência pela demora que eu mantinha em terminar o meu. Meio encabulado, pedi desculpas, dei uma explicação qualquer e fechei o caderno. Lá fora, ouvia-se barulho dos carros passando pela rua ao lado, mas os grilos ainda cantavam ao redor da velha estação. Era o que restava da poesia do Pátio dos Trilhos, que teimava em resistir.



quinta-feira, 30 de março de 2017

Cena de rua

Naquela manhã quente de domingo, 26 de março, caminhava eu em direção ao prédio que fica bem na frente de uma praça não muito tranquila da região central de Jacareí, onde moro. Era quase meio-dia. O local, como todos os pontos do perímetro urbano, vive dominado por moradores de rua daqueles que não demonstram a menor intenção de manter convivência normal com quem é obrigado a cruzar por ali a pé. É comum o passante ser abordado com pedidos de dinheiro ou ter de enfrentar cenas desagradáveis e até provocações.

A certa altura, notei um desses pedintes caminhando do outro lado da pista dupla entre a praça e meu condomínio. Ele seguia na mesma direção e me olhava fixamente. Eu precisava atravessar ali e caminhar um trecho praticamente ao seu lado para atingir o prédio. Pelas experiências que já tive em momentos assim, me veio a impressão de que eu viveria uma das tais abordagens se fizesse a travessia. Esbravejei mentalmente contra a prefeitura, a secretaria de atendimento social e contra todos quantos eu me dou o direito de botar a culpa pela miséria perambulante da cidade.

Porém, antes de eu decidir se mudaria o trajeto, se corria ou encarava a suposta abordagem, eis que para, bem na minha frente, um carro sedan bem velho, acho que da década de 1990, desses de pintura desbotada, cor indefinível, porta-malas com tampa de outra cor mais escura destoante do destoado conjunto. Enfim, um daqueles monstrengos sobre rodas com pneus carecas, tipo manjado que parece ter saído do ferro-velho naquele dia. Dirigia a coisa, um motorista de barba por fazer, boné surrado e outros sinais que nos colocam em guarda pelo que pode vir do semelhante.

Desnecessário é explicar o “filme” que se me passou pela cabeça naquele momento e, enquanto eu pensava no que fazer, o motorista, ignorando-me, acenou para o pedinte do outro lado aos gritos e da forma que eu jamais imaginaria ouvir num cenário daqueles: “senhor! Senhor!” Também surpreso, o maltrapilho parou e olhou para quem o chamava e ouviu o do boné gritar-lhe amigavelmente: “o senhor está com fome?!” Ele acenou afirmativamente com a cabeça. “Então vem cá!” disse-lhe o outro ainda em voz alta.

O motorista desceu do carro para ir ao encontro do pedinte que já estava próximo e, colocando a mão em seu ombro, disse-lhe amigavelmente: “tem uma quentinha(*) aqui pra você”. Conduziu-o até a parte de traz do carro, abriu a tampa escura do porta-malas e tirou de lá uma sacola branca dessas descartáveis, de plástico, com a tal quentinha. O pedinte agarrou-a com exagerada firmeza. De onde eu permanecia imóvel, deu para ver que o porta-malas do carro estava cheio de sacolas plásticas idênticas. Imaginei que seria para entregá-las a outros famintos das ruas.

Olhei para o mendigo que já se retirava dali com o passo mais firme, portando cuidadosamente o conteúdo que lhe saciaria a fome. Caminhava como quem se sentia naquele momento um ponto acima de sua aparência: um verdadeiro “cidadão em situação de rua” com dignidade; não pela comida grátis, mas pela atenção com que fora tratado em sua miséria.

Deixou para trás o velho carrão vermelho de tampa preta do porta-malas (sim, embora desbotadas, de repente, dava para identificar bem as cores do velho carro que adquiriu status de ‘salvador dos necessitados, como se o gesto daquele motorista acrescentasse ainda mais luz àquele meio-dia ensolarado de outono). Passou por mim sem me olhar e seguiu em frente para a sobrevivência de mais um dia.

(*) quentinha ou marmitex, nome que se dá à embalagem de alumínio com refeição para ser entregue em domicílios.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Conto de Natal


Joãozinho flagrou Papai Noel na sala de casa. Passava da meia-noite, o ambiente escuro, de luzes apagadas, recebia um mínimo de claridade vinda de fora que penetrava a janela envidraçada. Dava para identificar bem o vulto do velhinho. Era inconfundível; “um ladrão não perderia tempo vestindo aquela roupa esquisita”, pensou o garoto. Quando ele chegou perto da árvore de Natal, Joãozinho viu-o colocar junto a ela alguma coisa parecida com presente. Foi o momento em que ele, já bem próximo, resolveu dar o flagra:

– Arrá! Peguei você Papai Noel!
– Ei, de onde você surgiu? – disse surpreso o personagem ainda no escuro.
– Eu estava escondido atrás da poltrona pra pegar você e quase peguei foi o sono ainda há pouco. No ano passado eu não aguentei; dormi no chão antes da hora e não vi nada.
– Foi. Eu me lembro – comentou Papai Noel já conformado por ter-se exposto, e continuou –, mas qual a razão de vir agora atrapalhar meu trabalho? Se eu for falar com as crianças do meu setor nesta noite atraso as entregas, entende?
– Setor?!
– Sim, “eu sou muitos”. Você já é grandinho pra acreditar que um Papai Noel sozinho dá conta do mundo inteiro, não?
– Nossa! Vocês formam um montão sem tamanho de papais noeis, então?!
– Não somos tantos assim, mas damos conta. Ainda mais agora que vai demorar a aposentadoria... Por isso, não posso ficar conversando pelo caminho entende?
– Tá bom. Mas, meu caso é reclamação; um direito, tá bom?!
– Do que se trata, reclamante? - disse Papai Noel já meio esquentado.

 Chega de presente careta – bola, bicicleta, roupa... Estou dispensando essas coisas.
– E aos oito anos, você quer o quê, garoto?
Joãozinho estufou o peito:
– Um tablet, da êipou (escreve-se Aple, em inglês)!
– Ah, e da êipou, ainda?!
– É. Quero um pra arrasar!
– Acho que você fica é sem presente este ano. Passou do limite.
– Ei! Muitos dos meus amigos vão ganhar um tablet da êipou! Qual o problema?
– Em 2016?! Rá! Duvido. Sabe quanto custa? Estamos em contenção de gastos. A crise chegou à Lapônia, minha terra. Em tablete só posso garantir um de chocolate, serve? Seus amigos podem ganhar o que for, mas não de mim. Ou melhor, de qualquer um dos papais noeis.
– Por que isso, agora?!

– Simples, garoto. Existem presentes que engrandecem e os que nada significam. Os que engrandecem, são as bênçãos como vida, capacidade de ter sentimentos de bondade, sabedoria, amor ao próximo. Saúde, para desfrutar tudo isso com as pessoas queridas.
– Nunca vi nenhuma criança pedir isso.
– Não precisa pedir. A gente recebe quando nasce. É só cultivar, deixar crescer no coração e viver corretamente.
– Tá. E onde entra o tablet?
– Não entra. Fica de fora.
– Então, e a bola, o carrinho de plástico, o livro... ?! – disse Joãozinho resignado.
– Essas coisas, na verdade, não são os verdadeiros presentes. Embora tenham esse nome, são simples lembretes.
– Lembretes?!
– É. A cada ano, na época do Natal, cada um de nós, crianças de todas as idades, jovens, adultos e velhos, também, recebemos uma dose de reforço das energias renovadoras do dom da vida. 
– Igual quando a gente toma vacina?!
– É mais ou menos por aí entende?
– Acho que sim... Sem falar que o carrinho quebra, não é?
– Isso. O carrinho quebra, bicicleta roubam, tablet fica superado... Mas, a energia divina, a essência do Natal, permanece sempre forte e renovável. Opa! Acho que já falei demais. Escuto a sineta do trenó que deixei parado aí na porta. As renas ficam impacientes quando me demoro. Temos que visitar meio mundo, ainda. Meio mundo mesmo!

Nisto, alguém acende a luz da sala e Joãozinho olha para o lado do corredor para ver quem estava ali. Era Marta, mãe dele, que ouviu vozes e foi ver. 
– Acordado esta hora, moleque? Já pra cama! - disse.
– Vim falar aqui com o... (Joãozinho olhou para o lado da árvore de Natal, mas, não havia ninguém na sala além dele e a mãe). Janelas e porta de entrada estavam bem trancadas. O menino quis explicar para a mãe o que acontecera, porém, desistiu. Ela não acreditaria mesmo.

Joãozinho caminhou pensativo em direção ao quarto e – engraçado – sentia-se mais leve, mais responsável apesar de seus oito anos. Nem se ligou em ver o presente que o velho deixara ao pé da árvore enquanto conversavam. Só foi lembrar-se na manhã seguinte ao acordar. Foi direto para a sala.
De fato, lá estava alguma coisa caprichosamente embrulhada. Abriu o mais rápido que pode e... surpresa! Era um tablet – e da êipou!

Percebeu, entretanto, que isso para ele já não tinha mais tanta importância. Tratava-se  apenas de “um lembrete”, como dissera Papai Noel. Deixou-o cuidadosamente ali para depois explorá-lo. Naquele momento, foi em direção à cozinha tomar o café da manhã e,  pela primeira vez, sem precisar que a mãe insistisse. Ele estava crescendo de corpo e alma.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Flores amarelas no asfalto

Em dezembro de 1982 eu era, como ainda hoje, colaborador do jornal Diário de Jacareí. Certa vez, enviei por escrito um pedido de entrevista ao poeta e então prefeito Benedicto Sérgio Lencioni (foto), em final de mandato, com as perguntas. Ao invés de respondê-las, como eu esperava, ele enviou-me um de seus livros (Do meu amor e do meu amar) dizendo: “as respostas estão aí; é só encontrá-las”.
Pus-me a procurá-las e, de fato, estavam lá:

 Poeta, seus versos seguem a que escola?
 Tornei-me poeta peregrino,/ borboleta amiga do jardim/ em busca da flor do amor e do destino.

 Como encontra inspiração na aridez da política?
 (como) sonhador andante/ a percorrer as estradas intermináveis do desejo.

– É compensador?
 …só encontrei pelo chão,/ em vez da flor do amor, a flor que medra/ fria, dura, sem vida/ – a flor de pedra.

Na época, na rua Lamartine Delamare, 103, havia um quintal com uma velha e grande árvore que dava flores amarelas. Na florada, seus galhos carregados de pétalas atapetavam o asfalto da via como em protesto contra a feiura de uma enorme e velha fábrica vizinha semiabandonada, toda em sujos tijolos à vista. A ação da árvore impedia um enfeiamento ainda maior daquele pedaço da região central.

Algumas vezes, precisamos de uma árvore de flores amarelas em nossa vida para amenizar alguns caminhos feios. A poesia pode ser e é uma dessas, filosofei. Se a política do país, por exemplo, pertencesse à arquitetura, teria naquela tenebrosa construção uma convincente representante.
Voltemos à entrevista:

 Poeta, como foi acontecer de alguém com sua sensibilidade sucumbir ao “canto de sereia” da política?
 Um dia quis fugir dos estreitos limites desta vida que se esvai…
 Não é comprometer um passado e um futuro por tão pouco?
 O tempo tudo varre; tudo apaga.

 Todo poeta sofre ou sofreu por um caso de amor – verdade?
 Amei a vida como jamais alguém amou.
 Você costuma rezar?
 Não pode o ser que padece/ encontrar no mundo prece/ que lhe console o coração.
 Mas, como alivia, então, as mágoas?
 …eu sou o sensível que procura nos versos o remédio/ para curar as chagas deste tédio.

Estava ali uma fórmula de administrar a vida: versos para salvar a rua feia, para quebrar a monotonia da vida, para abafar as mágoas do coração. Resolvi, então, forçar o lado prefeito do poeta.

 Vamos falar um pouco de administração da cidade. Comenta-se muito o excesso de nomes concedidos às ruas que aconteceu ultimamente.
 A vida não é feita apenas com os vivos. Vivemos também com os nossos mortos.
 Agora que seu tempo de prefeito encerra-se diga umas palavras à cidade.
 Queria que jamais envelhecesses/ e que tua inocência não morresse.
 E o que mais lhe anima voltar à vida privada?
 Quero reencontrar “do outro lado” a cara do Sol redonda, colorida, quente!
 Será uma volta com alegria?
 Eu sairei pelos campos com as mãos cheias de flores a espalhar!
 Uma espécie de nascer de novo?
 Trarei  no rosto o sorriso/ da paz, manso e calmo,/ e meu corpo sem peso/ e sem dimensão/ flutuará nos ares/ sem os meus pesares/ quando o inverno partir.

 Você pretende voltar um dia à vida pública?

 Talvez algum dia, não sei/ Talvez um dia eu volte,/ talvez algum dia, / não sei./ Talvez!