sábado, 16 de abril de 2016

O poder da mente



"Há coisas no ar além dos aviões de carreira" (Barão de Itararé)



Os antigos telefones de disco costumavam ser trancados pelos proprietários com um pequeno cadeado que ao ser colocado em dois orifícios do disco impedia que o aparelho fosse usado sem a devida autorização. Você deve se lembrar. O que poucos sabiam é que o sistema de ligação telefônica funciona pela mecânica  de ligar e desligar o aparelho. O disco (hoje o teclado) apenas executa o liga-desliga.
Por exemplo, se ao invés de usar o disco (ou o teclado) você ligar e desligar com certa rapidez a peça móvel que sustenta o fone (gancho) consegue o mesmo efeito de discagem ou do acionamento das teclas.  Assim, se você quiser registrar o número 2 bata rapidamente duas vezes na parte móvel do gancho; para o 5, cinco vezes, para o 0 é preciso dez batidas rápidas. Pronto, ensinei.

Fiz em São Paulo, na década de 1970, um curso que se propunha a mostrar que a força do pensamento é algo real e domável para qualquer situação do cotidiano. O curso prometia que em uma semana sairíamos craques em “poder da mente”. Os bons na matéria. Fui na onda. Ainda guardo a carteirinha de aluno do “Super Mind Control” em cuja foto nem me reconheço.
Havia mais de 50 pessoas na minha classe. Gente boa de cabeça. Alguns se tornaram famosos como Lauro Trevisan, por exemplo. Logo no primeiro dia já nos entrosamos formando vários grupelhos por afinidade como é normal em cursos dessa natureza.

Amândio José Damas, um dos colegas, funcionário de médio escalão da coletoria estadual da Barra Funda, parecia diferente. Era daquele tipo que em toda classe existe um, seja qual for o curso. Amândio entendia as aulas à maneira dele, fazia perguntas absurdas principalmente durante a “hora do recreio”, quando geralmente comentávamos os assuntos das aulas. Amândio sempre tinha uma pergunta “nada a ver”; fora do contexto. Havíamos adotado uma estratégia para lidar com ele. Em classe, quando Amândio aparecia com um questionamento, dizíamos que a resposta seria dada “na hora do recreio” e, quando chegava o momento, divertíamos deixando Amândio mais confuso com as respostas mais absurdas possíveis que inventávamos.
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No recreio da penúltima noite eis que, de novo, surge o Amândio perguntando: “Será que esse negócio de poder da mente funciona mesmo?!” Veja a dúvida que ele ainda tinha já quase no final do curso. Depois do bombardeio de respostas estapafúrdias – “não só funciona como também funciona” ou “só não funciona quando a mente não funciona!” etc. – o pobre do Amândio conseguiu explicar-se: precisava telefonar para casa e o único aparelho telefônico da escola estava com o disco trancado a cadeado. Segundo ele havia apurado, ninguém na secretaria tinha a chave para liberar o aparelho que ficava numa sala contígua vazia àquela hora.
Amândio contou-nos que estivera até então “forçando a mente” (palavras dele) sem sucesso, na tentativa de comunicar-se “telepaticamente” (coisas dele) com a mãe em casa. Isto para que ela então lhe telefonasse (Celular não existia e era inviável sair dali à cata de telefone naquela hora da noite naquele local) já que se mostrava impossível fazer uma ligação ali.

“Esqueça a telepatia, Amândio! Fale pelo telefone da escola mesmo, apesar do cadeado, usando o poder da mente. Afinal pra que você está fazendo o curso?” – disse-lhe eu com a maior expressão de naturalidade que consegui assumir. Percebi seus olhos brilharem com a novidade.
Sem esperar dele qualquer reação, puxei-o pelo braço em direção à secretaria onde ficava o aparelho e, atrás de nós, veio todo nosso grupo já antecipando a diversão.

Jamais brinque com fogo!

Ao lado do telefone, caprichei na encenação. Pedi ao Amândio que se concentrasse o que ele obedeceu, de maneira exagerada até, sem contestar. Depois, disse-lhe que fosse batendo rapidamente com o dedo no gancho do aparelho quantas vezes representasse cada algarismo do número da linha. Amândio, meio que hipnotizado, obedeceu: 3 (deu três batidas), 4 (quatro batidas) e assim foi, 7, 2, 2, 8, era o número do telefone da casa dele.

Dois segundos se passaram depois da última pancadinha e “truuuuuu”... Maravilha! O telefone chamava. Quando alguém atendeu, todos nós assistimos a um Amândio extasiado gritando no aparelho: “Mãe!!! Acabo de ligar pra você pelo poder da mente!!!”
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Não tivemos tempo para continuar com a brincadeira porque o intervalo terminou e o pessoal já estava entrando para a segunda parte da aula da noite. Deixamos a sós um Amândio feliz e eufórico conversando com a mãe pelo telefone e fomos para a sala de aula tentar aprender de vez a lidar com a cachola. O assunto ‘ligar telefone pelo poder da mente’ morreu ali e ninguém mais tocou nele no dia seguinte, envolvidos que ficamos com o último dia de aula.

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O tempo passou como sempre faz. Certo dia, quase 25 anos depois, por essas coincidências da vida, tive de ir à coletoria estadual da Barra Funda tirar uma certidão para a empresa em que trabalhava. Cheguei ao local bem antes do expediente começar para ganhar tempo. De repente, quem vejo passar por mim no saguão de espera? O próprio: Amândio José Damas. Nem havia me lembrado de que ele trabalhava ali.
Estava outro homem. Mais amadurecido e muito seguro de si, sem aquela expressão calhorda que mantinha na época do curso. Soube depois que ele fora promovido a chefe de qualquer coisa na repartição.
Amândio reconheceu-me, foi cordial e insistiu para que eu entrasse no recinto reservado aos funcionários. Na repartição não havia quase ninguém ainda, apenas o pessoal da copa. Era para um cafezinho que ele me convidava. Convenceu-me e aceitei.

Entramos. No meio da conversa, disse-lhe o porquê de estar ali e ele, solícito, falou-me dos documentos exigidos para o meu caso e mostrou-me que faltava determinado cartão obrigatório de ser apresentado “no original”. Havia nele certo código de segurança que era preciso conferir.
Mais uma vez fui surpreendido pela generosidade do Amândio. Sugeriu-me que telefonasse para a empresa – poderia usar o telefone ali mesmo, da coletoria – e obtivesse o tal número exigido sem que eu precisasse apresentar o cartão que havia deixado no trabalho. Ele (!) liberaria assim mesmo a tal certidão, pois, confiava plenamente (!!) em mim, seu velho amigo (!!!) de classe. Nessa altura, passei a me sentir envergonhado e arrependido – um lixo até – por ter feito o que fizera para o pobre Amândio 25 anos atrás. Imagine! Como pude aproveitar a inocência de um sujeito como ele só para fazer graça perante os colegas?” pensei autocensurando-me.
Encurralado pelas circunstâncias, fui em frente. Dirigi-me ao telefone, Amândio foi logo atrás, e quando olhei para o aparelho... “Está com cadeado!”, falei alto sem refletir, pego que fui de surpresa. De fato, tratava-se de um antigo aparelho e com o inconveniente cadeado ali a fim de tentar impedir ligações.
Amândio olhou para mim e como que adivinhando a razão da surpresa disse: “Use o poder da mente para ligar, ué!” Fiquei meio indeciso, mas ele abriu um largo sorriso fazendo entender que estava tudo bem entre nós, e acabamos por rir juntos.

Amândio saiu dali em direção ao seu gabinete e eu, reanimado, claro que ainda meio sem jeito, pus-me automaticamente a dar as tais pancadinhas ridículas no gancho do telefone, exatamente como ele fizera a meu comando naquela agora inesquecível noite. Sentia-me incomodado, mesmo sem muitas pessoas ali a me observar (aos poucos os funcionários começavam a chegar). Para alívio meu, entretanto, a ligação foi completada, falei com quem devia, anotei o que precisava. Pedi que chamassem o Amândio e passei-lhe a informação.
Sempre cordial, meu agora declarado amigo despediu-se com palavras de praxe – “prazer em revê-lo, apareça qualquer dia” etc. – e instruiu-me: “Vou para minha sala. Daqui a cinco minutos começa o expediente, o pessoal todo chega, providencio a liberação de sua certidão e peço para alguém lhe entregar rapidinho ali no saguão, certo?” Agradeci-lhe, ainda desconfortado pelo remorso, e fui aguardar no saguão junto a um público já numeroso àquela altura.

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Demorou menos do que imaginei para uma repartição pública. Quinze minutos depois, se tanto, uma jovem e sorridente funcionária entregava-me a tal certidão. Puxei conversa para lhe ser agradável e me ocorreu comentar sobre o aparelho telefônico. “Gostei de ver vocês manterem conservado um telefone clássico em meio a toda essa parafernália moderna, igual a esse que usei ainda há pouco aqui na repartição”, disse-lhe. Ela me olhou um tanto surpresa, enquanto eu admirado concluía em seguida: “e ainda funcionando tão bem!”.
“Funcionando?!”, – comentou a moça com uma expressão estranha – “Nunca foi ligado aqui. Usamos essa relíquia trazida pelo doutor Amândio como enfeite. Às vezes serve para segurar papéis a fim de que não voem com o vento”, disse ela e concluiu abaixando a voz: “acho até que se trata de algum objeto de estimação do doutor Amândio”, segredou.
Então, fui eu quem ficou estranho. Não me conformei com aquilo e pedi à moça que fôssemos até o aparelho, o que ela fez um tanto constrangida porque o expediente já havia começado e ela tinha mais o que fazer, com certeza.
Diante do que acabava de me acontecer, entretanto, nada seria capaz de deter minha ânsia de examinar o velho telefone. Chegamos até ele, coloquei o fone no ouvido: de fato, mudo! Ergui o aparelho da mesa examinei-o por baixo, pelos lados e nada. Estava solto sem nenhum fio que o ligasse a qualquer circuito.
Tive impulso de procurar Amândio para ouvir explicações, mas me contive. Deu-me a impressão de que ele já estava o tempo todo me observando à distância com ar de desforra. Agradeci à moça e saí dali o mais rápido que pude sem olhar para nada.

Lá fora, a correria dos paulistanos me devolveu à vida real e acabou por transformar meu remorso em alívio. Até porque eu acabava de pagar uma dívida moral de mais de 25 anos. “Chumbo trocado não dói”, como se diz sabiamente no Vale do Paraíba. Como aquilo aconteceu?! Nem me interessou, nem me interessa saber – coisas do Super Mind, quem sabe?! Será que esse negócio de poder da mente funciona mesmo?! Acho que preciso fazer o curso de novo.







(*) Benedito Veloso é jornalista e membro da Academia Jacarehyense de letras

Arte de ver a arte


O pintor Walter Handro



Meu amigo, Walter Handro, mora em São Paulo e é pintor de quadros. Tem vários trabalhos premiados em exposições e um deles me toca muito. É da série impressionista "paisagem urbana" que retrata uma favela típica com barracos coloridos em traços disformes para dar o clima propício. Vejo no quadro a mulher com lata de água na cabeça, grávida, acompanhada por uma garotinha mirrada, de seus cinco anos, que a segue saltitante segurando uma bonequinha tão pobre quanto as duas. Um cachorro vadio, esquálido, modorreia ao sol que castiga àquela hora. Mais adiante, homens em pé fazem samba ao redor de um negro com vermelhos nos olhos que se esforça para acompanhar a cantilena ao violão.

Há mulheres debruçadas em uma ou outra janela; outras que mal aparecem pelas portas sempre abertas e crianças que levam tabefes e choram. Outras, ajudam levando lixo aonde parece ser o canto em que os moradores descarregam o quase nada que lhes sobra da pobreza. Enfim, são centenas de flagrantes da vida de gente que toca o dia-a-dia quase que por milagre. Não há bandidos nessa comunidade. Na desse quadro, não.

Essa pintura mexe comigo.  Às vezes “viajo”, ao contemplá-la, imaginando a adolescente de 15 anos cheia de sonhos que logo vai estar prenha e abandonada por quem a engravidou. Vejo certa mãe que lava roupa pra fora, cuida da penca de filhos e mal ganha pra comer.

Relato essas coisas para comentar uma característica das pinturas de Walter Handro: embora ele jamais retrate pessoas ou qualquer ser vivo em seus quadros, a gente “vê”  as pessoas ali. O quadro que acabo de descrever pertence a uma série de favelas que Handro pintou, só mostra os barracos, nada mais. 

Falei sobre isso numa exposição de artes, certa vez. Um crítico me explicou que se trata de uma característica de raros artistas, cujos trabalhos sugerem vidas e outras imagens através da composição de quadros que não as têm. “Talvez uma das características pouco exploradas da arte, já que não são todos os artistas que atingem um estágio avançado desses”, comentou. Pensei reproduzir o trabalho aqui, mas faço diferente: sugiro que você “veja” a pintura, embora o quadro não esteja presente, e nele os barracos. Com um pouco mais de concentração, vai ver também, segundo seu conhecimento de mundo, pessoas no cenário.  Questão de treino, ou melhor, de botar sentimento pra fora; tente.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

Questão de texto


O professor Benedicto Sérgio Lencioni, ex-prefeito de Jacareí (SP), historiador reconhecido e respeitado membro da AJL (Academia Jacarehyense de Letras), foi mais uma vez a voz solitária na advertência de que comemorar o aniversário de sua cidade no dia 3 de abril, como aconteceu de novo este ano, não é historicamente correto. Os estudos de Lencioni remetem à data de 24 de novembro de 1653 como sendo a da fundação da Vila de Nossa Senhora da Conceição do Paraíba de Jacareí. Provavelmente, só a atual presidente da AJL, Ana Luiza do Patrocínio, também historiadora, e a ex, Salette Granato, silenciosamente concordam com a tese de que a data correta é 24 de novembro.

Nem o pré-candidato a prefeito, Izaías Santana (o Isaías dele é com “z” mesmo), ligado politicamente a Lencioni em passado recente, endossa a denúncia do erro histórico. Neste fim de semana, Izaías publicou anúncio nos jornais da cidade cumprimentando Jacareí pelos “364 anos”. Estaria errado mesmo que ele não quisesse apoiar o amigo. Aliás, na política, só o vereador Edinho Guedes faz algumas gestões a respeito do assunto, provocado inicialmente por Salette que também é funcionária do Legislativo. É: a ex-presidente da academia agita um pouco.

Existe farta argumentação do historiador na defesa de sua tese. Vou citar uma. Ao adotar 3 de abril como aniversário da cidade, quiseram se referir a 3 de abril de 1849, quando Jacareí foi elevada de vila à categoria de cidade. Nesse caso, seriam 167 anos e não 364 como quer a contagem oficial.
Pior é que a solução do problema parece bem mais simples, como pretendo explicar em matéria futura. O que estou sugerindo, agora, é que a Academia Jacarehyense de Letras compre a briga e passe a comemorar o aniversário de Jacareí no dia 24 de novembro por dois motivos importantes: O primeiro é o de apoiar seu respeitado membro ou convencê-lo de que está errado; o segundo já lhe mostro.

Adotando o que proponho, a academia passaria a comemorar os 363 (contagem correta) anos. Afinal, Lencioni foi seu presidente por três gestões e se não contar com anuência de seus 26 pares como pode esperar apoio de 250 mil habitantes da cidade? Comemorar em 3 de abril é ignorar o trabalho dele. Parece, também, que há um erro de interpretação de texto que pode ser perdoável a 249.973 pessoas, menos aos 27 acadêmicos de letras: A data de 3 de abril é oficialmente o “Dia do Município de Jacareí”, não o comemorativo à data de sua fundação. Veja 

http://legislacao.jacarei.sp.gov.br:85/jacarei/images/leis/html/L53602009.html

quinta-feira, 24 de março de 2016

Amor cego e a questão da idade

Conheci uma jovem semana passada no Jacareí Shopping, sábado, 19, para ser mais exato, por quem me apaixonei. Saudável, leal, determinada e bonita. Ingênua, no sentido de que ainda não se deixou contaminar pela falsidade do mundo, mas a persegue com o risco da própria vida. Falo dela publicamente, quebrando minhas regras de discrição, como mínimo tributo à admiração que ela me causou à primeira vista. Chama-se Juddy.
Ju, já me permito chamá-la assim, pois, para mim, tornou-se “a cara!”

Como ninguém é perfeita, Ju é policial. Combate a corrupção, a falta de caráter, as injustiças, as traições e o mal do cotidiano em todos os seus papéis. Tem personalidade forte e não desiste de seus objetivos. Sua dedicação à causa humana vai além de suas obrigações, para falar a linguagem comum “vai além daquilo que lhe pagam para fazer”.
Ela representa, sem bandeira e sem chiliques, a causa básica feminina ainda longe de ser atendida. Tem sensibilidade à flor da pele e – o mais importante – passa a todos, de pronto, a beleza de seu caráter.


Como você já percebeu, ela é a personagem principal do filme Zootopia, em cartaz no Cinemark do Jacareí Shopping. A equipe Disney chegou ao topo em qualidade das produções. Tecnologia incrível (recomendo assisti-lo em 3D na sessão das 20h) e uma sutileza em trabalhar o enredo daquelas de fazer-nos suspirar de admiração. Riqueza de detalhes mínimos como, para citar apenas um, o telefone celular da Ju tem como símbolo, ao invés da maçã mordida como os da Apple, tem uma cenoura mordida. Como este tem dezenas de outros enfeites que chegam a fazer do cenário um filme à parte.

A história é toda metáfora. De tal modo, que crianças assistem e gostam pelo encantamento que lhes causam as imagens de bichos, adultos em geral admiram os efeitos impressionantemente perfeitos da tecnologia e adultos especiais apreciam tudo isso mais os simbolismos dessa fábula eletrônica que além do tratamento discriminatório à mulher, mostra a falsa harmonia social vivida pelos “bichos” humanos. Harmonia esta que precisa ser mantida a poder de polícia para que os viventes não voltem a se devorar uns aos outros conforme têm vontade.


A equipe Disney movimenta tudo isso e muito mais com a experiência quase centenária que começou com o rato humanizado Mickey, em 1920, e chega à apoteose com os humanos-ratos do século 21. Não todos, claro, como não eram todos ratos humanizados na era Mickey. Existem, tanto no filme quanto por aqui, outros bichos de boa índole como o preguiça Flash e mais alguns. E também os que nos sensibilizam e nos apaixonam como a coelha Ju. Concordo que as orelhas dela são um tanto compridas, mas, o amor é cego. Ou minha cegueira é questão de idade?! Melhor deixar as metáforas para os gêniais da Disney.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Avenida Paulista só para pedestres


Cantor solo apresenta seu som na calçada


O domingo na Avenida Paulista sem carros é uma
emocionante aventura de surpresas e carências

No ensolarado domingo, 17 de  janeiro de 2015,  fui conhecer a Avenida Paulista sem os milhares carros que a entopem todos os dias desde sempre. Ainda não havia passado por ela depois de implantado esse novo perfil provocador de polêmicas, mas que pegou.

A principal via pública da Capital havia tempo vinha sendo tomada por artistas diversos e vendedores quinquilharias em cautelosas disputas de espaço com pedestres e com automóveis. Jamais havia imaginado apreciar o que vi naquele primeiro contato com a novidade. Livre de automóveis e gente apressada, aos domingos a Paulista é quase três quilômetros de povo alegre, bonito e - o melhor de tudo - sem pressa.  Gostei de pronto e, parece, a maioria de quem a vê assim pela primeira vez também.

Inicialmente, muitos, como eu, diante do impacto inicial não sabem exatamente o que fazer com a liberdade de circular, parar, formar rodinhas, sentar-se no meio da pista e até se deitar no chão para ver os altos edifícios ao redor, se quiser. De fato, custa um pouco acreditar que aquilo tudo seja de verdade. 


Se a caminhada der fome, há ofertas de comida para todos os gostos. Bares, cafeterias, lanchonetes, agrupamentos de “food truck” ajeitam-se nos espaços permitidos na própria avenida ou nas dezenas de vias laterais. 

Mini passeatas também são comuns. Vi duas. A de um sindicato de trabalhadores em museus (!), com cerca de 20 pessoas, e uma de protesto “pela libertação da Síria” com gritos, cânticos e palavras de ordem ditos em árabe cujo teor obviamente não pude entender (e acho que ninguém ali parado para vê-la passar entendia). Apesar disso, todos nos mostramos solidários e com uma apropriada expressão no rosto.

Um músico solitário cantava bonito ao estilo country na porta de um banco acompanhando-se à guitarra. Outro, metros adiante, cantava mal e sem estilo ao lado de uma banca de jornal, mas nem ele nem ninguém que o assistia se importava com a qualidade sonora. Em frente ao Parque Siqueira Campos (área verde que avança dois quarteirões sobre o Túnel Nove de Julho a partir do Museu de Arte) o quarteto “Meninos da Rua” executava jazz ao estilo New Orleans; Maravilhoso! O povo vibrava sem perceber que pisoteava um poema escrito a tinta branca na calçada.

A alguns passos dali, um lavrador com cara de oriental abrasileirado vendia, coado na hora, um café meio ruim de sabor e consistência, mas paulistanos, em fila, esperavam cerca de dez minutos para conseguir uma xicarazinha a R$ 4, e tomava aquilo com admiração. Tomei um e quis saber o motivo da admiração: “Ele mesmo planta, colhe, torra, mói, traz aqui pra avenida e prepara pra gente na hora”, explicou-me um jovem que acabava de sorver a gororoba com respeito religioso. “O que vale é o contexto”, filosofei conformado sem muita convicção, mas, confesso: a mim, que vivo em Jacareí, foi difícil disfarçar uma emocionada cara de dó por constatar como é sentimentalmente carente o paulistano comum.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Batalhas do cotidiano

Por volta das 9h do dia 31 de dezembro, fui ao supermercado. Eu havia dividido brindes tardiamente (devia tê-lo feito no Natal) entre o pessoal de serviço do prédio em que moro e faltava um panetone. Cheguei pouco depois de abrir o estabelecimento, ainda com pouca gente, peguei uma caixinha de panetone na prateleira (R$ 9,99) e aproveitei para levar também 1 litro de óleo de soja (R$ 3,35) que, me lembrei na hora, estava faltando em casa.

Assim, corajosamente coloquei meus dois humildes produtos sobre a esteira rolante de um dos caixas, indiferente aos olhares de funcionários e fregueses admirados pela minha ousadia de numa véspera de Ano Novo ir a um supermercado para comprar apenas dois itens que, fossem do que fossem, não somavam 15 reais.

Minha vontade era subir numa gôndola ali próxima e gritar para a loja (àquela altura já com movimento razoável), que eu estava no local apenas para completar uma compra anterior feita nas vésperas do Natal, esta sim de carrinho cheio como todos gostam de ver e exibir. Ficou na vontade porque como não sou bom em falar ao público de improviso achei por bem me deixar quieto.


Na minha frente havia uma única pessoa finalizando a compra. Eu seria o próximo. Meus dois produtos ali, pelo que entendi enfeando a esteira, aguardando a vez sob os olhares disfarçados de quem estava por perto. Segundos depois, chegou atrás de mim um casal, esse sim com dois carrinhos transbordando de itens que dariam para festas, passar o mês e ainda sobrar. O homem, com toda pose que a compra lhe concedia o direito de fazer foi logo descarregando o material sobre a esteira e esta, agradecida, ia se deslocando automaticamente em direção à moça do caixa como se eu e meus dois itenzinhos não existíssemos. Senti no ar um mudo suspiro geral de alívio. A ordem mercantil quebrada por mim fora restabelecida.

Não fui aplaudido - O que se seguiu nem valeria a pena contar. Faço-o em respeito à curiosidade de algum eventual colecionador de histórias de supermercados que, a exemplo dos extintos colecionadores de selos, de tampinhas de cervejas e das antigas carteiras de cigarros, entram em pânico quando não completam uma coleção.

Colaborou para o desfecho, a tal esteira automática que se deslocava a cada pacote que o homem atrás de mim colocava sobre ela. Até que o espaço acabou. Meus dois itens ocupavam a justa medida de suas dimensões espremido no início da fila de pacotes (os dois meus e a montanha dos dele). Pensei: “agora a esteira para e espera eu sair para continuar a movimentar-se em respeito aos meus cabelos brancos”. Engano. O homem colocou outro desafiador pacote na outra extremidade e a esteira que, agora já totalmente submissa ao grandalhão parecia sentir-se um tapete mágico, avançou provocadora espirrando o meu panetone e o meu litro de óleo a uns cinco centímetros para o alto com o impacto do tranco. 

Arrá! Fui rápido, porém! (Desconfiado, permanecia em estado de alerta) Peguei no ar ambos os produtos e imediatamente coloquei-os (soquei-os, seria um termo mais apropriado) sobre o monte de compras do casal petulante que entupia a esteira e me expulsava para fora.

Para garantir a estabilidade de minhas duas comprinhas agora sobre a montanha de produtos que me hostilizava, permaneci apoiando-as para que não caíssem com o próximo movimento da coisa (até me debrucei um pouco sobre a pilha deles). Esperei a reação do sujeito à minha audácia, mas sem sequer olhar para ele como se não houvesse mais ninguém ali. Preparei-me para o pior. Nada. Silêncio absoluto à minha volta. Nem a esteira se atrevia mexer-se mais um milímetro que fosse.


“O senhor quer CPF na nota?” me perguntou-me quase num sussurro a moça do caixa depois de segundos de mudez. Ditei-lhe o número do documento sem a menor pressa. Terminadas as perguntas de praxe ela pegou de cima da pilha, com todo cuidado, o panetone e o óleo, um após outro, fez a leitura de barras, me falou o valor, “R$ 13,34”, paguei, ensaquei e saí dali a passos firmes com ar de “comigo tem café no bule!” sem olhar pra ninguém, mas, confesso, diante do ato esperando aplausos. Não vieram. Gente insensível! Também, por R$ 13,34, se ainda fosse uns R$50,00. Antes tivesse comprado mais umas coisinhas...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016


A informática dos seres humanos

Há algum tempo um sujeito tentou me explicar a origem humana por meio de alguns conceitos da informática. Ele era profissional da área de programação e puxou a brasa para a própria sardinha. Dizia ele, em resumo, que Deus ao fazer o homem introduziu no cérebro dele uma espécie de chip onde estão todas as informações necessárias à solução de grandes e pequenos problemas existenciais. Basta saber acessar essas informações o que, parece, a maioria ainda não descobrimos como.

Não que ele entendesse ter sido a raça humana fruto da informática ou coisa parecida. Ele a usava o argumento para tentar explicar como nós funcionamos e, para isso, fazia um paralelo com as descobertas da área em que atuava. Todos os seres nascem -- dizia ele -- com essas programações na "memória" e na medida em que vivem e se desenvolvem vão descobrindo, uns mais rápidamente outros menos, como usar o maravilhoso programa. A oração, exemplificava, seria uma forma de direcionar energias do pensamento para essa reserva psiquica do cérebro e trabalhar um possível "milagre". Dizia ainda meu amigo que recebemos do Criador, de tempos em tempos, "atualizações do nosso programa", exatamente como fazem os fabricantes de softwares, mas isto já é sofisticação que só vai complicar o assunto se continuarmos nele.

Sexta-feira, 1, o jornal Folha de São Paulo publicou na sessão Ciência uma experiência realizada com formigas na Universidade da Pensilvânia (EUA) segundo a qual pesquisadores, liderados pela cientista Shelley Berger, conseguiram mudar o comportamento de formigas da mesma espécie sem alterar-lhes em nada o DNA. Sempre foi uma incognita para os estudiosos o fato de numa espécie de formiga em que todas possuem os mesmos genes existam grupos de comportamentos tão diversificados. Uma é a rainha, outras são operárias e inférteis e que só vivem a buscar alimentos, outras são as guardiãs, mais fortes, e que não buscam alimentos, etc.

A experiência em questão mostrou que certas drogas modificaram o comportamento das formigas sem alterar-lhes os genes. Ou seja, fatores externos influenciam o íntimo do ser vivo a ponto de mudar-lhes radicalmente o caráter sem qualquer alteração no DNA. As guardiãs passavam a procurar alimentos e não mais zelavam pela segurança do formigueiro; as operárias faziam o papel das guardiãs. Aí eu me lembrei do amigo Márcio (era esse o nome dele), fanático por informática que dizia, com outras palavras, que certas atitudes humanas podem mudar "a programação" das pessoas e o caráter só pode ser mudado com força de vontade.

A experiência da Universidade da Pensilvânia mostrou que droga interfere na parte chamada "epigenética", um grupo de moléculas que está no organismo do ser vivo e é capaz de alterar seu comportamento sem alterar-lhe a estrutura genética. Uma única dose da droga muda o comportamento das formigas por 50 dias. Outro pesquisador afirma que o mesmo resultado se obtém em outros insetos que vivem em colônicas sociais como abelhas e cupins, que passam a trocar tarefas e tornam-se reprodutivas se não eram etc. Por que não se pode alterar as ações de grupos de seres humanos? É o que a experiência procura respoder. Para o meu amigo Márcio já está há muito respondido.