quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Flores amarelas no asfalto

Em dezembro de 1982 eu era, como ainda hoje, colaborador do jornal Diário de Jacareí. Certa vez, enviei por escrito um pedido de entrevista ao poeta e então prefeito Benedicto Sérgio Lencioni (foto), em final de mandato, com as perguntas. Ao invés de respondê-las, como eu esperava, ele enviou-me um de seus livros (Do meu amor e do meu amar) dizendo: “as respostas estão aí; é só encontrá-las”.
Pus-me a procurá-las e, de fato, estavam lá:

 Poeta, seus versos seguem a que escola?
 Tornei-me poeta peregrino,/ borboleta amiga do jardim/ em busca da flor do amor e do destino.

 Como encontra inspiração na aridez da política?
 (como) sonhador andante/ a percorrer as estradas intermináveis do desejo.

– É compensador?
 …só encontrei pelo chão,/ em vez da flor do amor, a flor que medra/ fria, dura, sem vida/ – a flor de pedra.

Na época, na rua Lamartine Delamare, 103, havia um quintal com uma velha e grande árvore que dava flores amarelas. Na florada, seus galhos carregados de pétalas atapetavam o asfalto da via como em protesto contra a feiura de uma enorme e velha fábrica vizinha semiabandonada, toda em sujos tijolos à vista. A ação da árvore impedia um enfeiamento ainda maior daquele pedaço da região central.

Algumas vezes, precisamos de uma árvore de flores amarelas em nossa vida para amenizar alguns caminhos feios. A poesia pode ser e é uma dessas, filosofei. Se a política do país, por exemplo, pertencesse à arquitetura, teria naquela tenebrosa construção uma convincente representante.
Voltemos à entrevista:

 Poeta, como foi acontecer de alguém com sua sensibilidade sucumbir ao “canto de sereia” da política?
 Um dia quis fugir dos estreitos limites desta vida que se esvai…
 Não é comprometer um passado e um futuro por tão pouco?
 O tempo tudo varre; tudo apaga.

 Todo poeta sofre ou sofreu por um caso de amor – verdade?
 Amei a vida como jamais alguém amou.
 Você costuma rezar?
 Não pode o ser que padece/ encontrar no mundo prece/ que lhe console o coração.
 Mas, como alivia, então, as mágoas?
 …eu sou o sensível que procura nos versos o remédio/ para curar as chagas deste tédio.

Estava ali uma fórmula de administrar a vida: versos para salvar a rua feia, para quebrar a monotonia da vida, para abafar as mágoas do coração. Resolvi, então, forçar o lado prefeito do poeta.

 Vamos falar um pouco de administração da cidade. Comenta-se muito o excesso de nomes concedidos às ruas que aconteceu ultimamente.
 A vida não é feita apenas com os vivos. Vivemos também com os nossos mortos.
 Agora que seu tempo de prefeito encerra-se diga umas palavras à cidade.
 Queria que jamais envelhecesses/ e que tua inocência não morresse.
 E o que mais lhe anima voltar à vida privada?
 Quero reencontrar “do outro lado” a cara do Sol redonda, colorida, quente!
 Será uma volta com alegria?
 Eu sairei pelos campos com as mãos cheias de flores a espalhar!
 Uma espécie de nascer de novo?
 Trarei  no rosto o sorriso/ da paz, manso e calmo,/ e meu corpo sem peso/ e sem dimensão/ flutuará nos ares/ sem os meus pesares/ quando o inverno partir.

 Você pretende voltar um dia à vida pública?

 Talvez algum dia, não sei/ Talvez um dia eu volte,/ talvez algum dia, / não sei./ Talvez!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Artwork eletrônica de equipe, quem tem medo?



Faz algum tempo quero escrever sobre arte eletrônica de equipe, “artwork”, ou seja lá que nome possa explicar melhor essa coisa maravilhosa que permite a produção de um quadro como se fosse pintura ou desenho, em qualquer tamanho, com alguns um cliques no computador. Vamos tomar, por exemplo, esta foto da escritora Joana Aranha:






E agora, veja
a seguir como ficou
depois de um
tratamento
no computador:




Pode-se dizer,
semelhante a um desenho a guache
com finalização
em pincel fino, ou aquarela com
finalização a pena com tinta nanquim.
Tempo total de produção:
não mais de 15 minutos.



Veja estas outras artes, a partir da foto de um ipê, cuja produção levou mais ou menos 45 minutos somando-se tempo de fotografar a árvore em uma praça de Jacareí com os da preparação e cliques finais, em dois estilos diferentes:
  
    

Com uma foto de alta definição, como as originais das que serviram de exemplo, pode se conseguir um quadro de até 1 metro por 1 metro sem perder qualidade (a última foto é do mesmo local tirada em outra data em ângulo um pouco diferente, mas poderia ser a anterior).

Claro que as produções destas e de outras artes não concedem mérito a mim nem a ninguém como se as produzíssemos em quadro a pincel e tinta, mas a emoção estética de produzi-las existe, embora seja de outro tipo: sermos partícipes de um grupo de centenas de profissionais (talvez milhares) que se dedicaram e dedicam à criação de programas eletrônicos que chegaram a esse potencial. E mais: permite que um número maior de pessoas sinta o mesmo prazer em produzir uma arte, seja de que tema for.

Minha participação nos exemplos acima, foi tirar ou escolher uma foto, dar-lhe mais qualidade por meio do corte adequado em um trabalho de preparação que requer habilidade específica. Isso buscou provocar efeitos que eu desejo sejam exclusivos para chegar a um resultado final agradável.  Sinto-me (e todos que tentarem a técnica vão sentir o mesmo) membro usuário do citado grupo que desenvolveu o programa, e com poderes (agora apenas eu) para dizer quando está bom ou quando não está, quando está pronto ou quando ainda não. Esta prerrogativa é só de quem produz, ou seja, de quem vai dar otoque artístico ao trabalho.

Não é correto julgar uma obra assim com os mesmos critérios de quem examina um quadro clássico, nem esperar do mesmo um resultado como se fosse uma arte em pincel e tinta. Trata-se aqui de outra coisa. Outra linguagem. A pintura tradicional segue o seu caminho. Apenas, insisto, estamos diante de uma arte nova, contemporânea, revolucionária; por isto ela incomoda.

Quem gosta de pesquisar o assunto deve lembrar-se que no início também rejeitaram a arte neoclássica, a impressionista, a expressionista, a art noveau, a moderna, o cubismo e tantas quantas contemporâneas surgiram e continuam. O mesmo fenômeno de rejeição inicial já aconteceu com a fotografia, o cinema e tantos outros experimentos. O novo sempre incomoda. Mas não cabe grandes preocupações. O público, a clientela, é que vai dar a palavra final. Se gostar, fica; caso contrário passa. 

domingo, 25 de setembro de 2016

O traje é a mensagem





Na manhã da quinta-feira, 26 de novembro de 2009, aconteceu em Jacareí o lançamento da pedra fundamental pela ampliação em mais 50% da área construída de um hospital de referência na RMVale (Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte). Fizeram uma singela, porém, concorrida cerimônia. O calor estava insuportável.

Houve uma pequena confusão na chegada dos convidados porque os veículos que se dirigiam ao evento estavam sendo direcionados para o portão 2, quase nunca usado, para não tumultuar o acesso comum ao hospital. Só funcionários e médicos conheciam o tal portão alternativo, até porque ele ficava de certa forma escondido em rua lateral de pouca visibilidade. Na hora que chegava, o convidado era educadamente barrado na entrada principal, a mais conhecida, e informado de que, para tanto, deveria dar meia volta pelo quarteirão para acessar a entrada correta. Isso não deixou de causar um certo tumulto no local.

Uma das autoridades, um conhecido promotor de Justiça da cidade, chegava dirigindo o próprio carro quando viu o pequeno congestionamento formado pela situação. Sem saber do que se tratava, resolveu deixar o carro ali mesmo na rua, a certa distância do portão tumultuado, e seguir a pé até ele.  Ao chegar lá, foi informado de que deveria ir ao portão 2, como todo mundo. A autoridade ficou por uns momentos indecisa se deixava ou não o carro onde havia estacionado minutos antes e entrava a pé, quando o prefeito da vizinha Santa Branca, que já havia sido orientado corretamente, ao vê-lo ofereceu-lhe a pequena carona até o portão certo. Ele aceitou.

Por causa do calor, o prefeito de Santa Branca, que dirigia o carro oficial (ele era famoso por quase sempre dispensar motorista) estava de camisa-esporte, obviamente sem paletó, embora alinhadamente trajado. O promotor-carona, ao contrário, mantinha o protocolo e permanecia de paletó e gravata como o cargo e a sociedade à época lhe impunham em momentos como aquele. Aconteceu, claro, o que você já deve estar imaginando.

Ao chegarem ao portão 2, um dos recepcionistas, ao ver o carro com placa de prefeitura, dirigiu-se a quem? Ao carona de terno e gravata e disse-lhe, cerimoniosamente, apontando para a tenda de recepção armada no pátio do estacionamento: “Senhor Prefeito, o evento será ali, e depois que o ‘motorista’ deixar o senhor ele pode estacionar o carro logo mais à frente”, informou, olhando para o verdadeiro prefeito em mangas de camisa, para ver se ele havia entendido o recado. Sim, havia entendido “os recados” .  E você também, tenho certeza.


O sociólogo canadense Marshall McLuhan definiu que “o meio é a mensagem”, referindo-se aos meios de comunicação e a influência deles na sociedade. Não disse, mas, provavelmente teria dito se soubesse desse caso: “o traje também é um forte meio de comunicação”.

domingo, 4 de setembro de 2016

A quarta fase do monólito negro



Quem curte cinema com certeza assistiu ao clássico “2001, uma odisseia no espaço”. A película, de 1968, surpreende pelas mensagens embutidas em um contexto simples que permitem uma leitura ousada. Várias leituras, aliás, como demonstro a seguir. Não há nada do chavão comum em produções anteriores de ficção científica. O diretor Stanley Kubrick alinhou cenas inteligíveis com certa sequencia lógica, que começam com gorilas organizados em grupos, na aurora da humanidade, e terminam com um solitário astronauta perdido em Júpiter no ano 2001. O enredo, sim, é nebuloso, equivocante, ao contrário das citadas cenas e de outros elementos do filme. Não há monstros verdes que cospem fogo, muito menos garotas insinuantes de corpo escultural e com olho na testa, nem outras besteiras do gênero. Ao contrário, há fatos que se assemelham a nossa rotina terráquea. Por exemplo, momentos antes de o astronauta participar de uma reunião importante em determinado satélite, onde lhe seria explicada e confiada a secreta missão em Júpiter, ele conversa por videofone com a filhinha que ficou na Terra e faz a ela recomendações bem domésticas.

Já ultrapassamos 2001 faz 15 anos. Muitas das “previsões” implícitas no enredo do filme não aconteceram, outras, sim, e algumas foram além do previsto. Não importa. As propostas de Kubrick foram outras, por exemplo, cada vez que alguém assistisse ao filme teria um entendimento diferente ou nenhum, isto o filme conseguiu. Trata-se, pois, de um trabalho intrigante que permite sempre novas leituras. Por isto, mesmo hoje, 50 anos depois, seu filme está longe de esgotar-se.

Essa a razão pela qual me baseio nele para comentar certa passagem do último sarau da AJL (Academia Jacarehyense de Letras) que aconteceu no sábado, 27 de agosto, no Educa Mais, Centrom em Jacareí. O evento premiava poetas brasileiros e de países de língua portuguesa que participaram do “Concurso Internacional de Sonetos”. Fui o apresentador do sarau.

A garota do celular

A certa altura da apresentação eu fiquei irritado com uma jovem de seus 16 anos que, na plateia, não tirava os olhos do celular. Fixei-me nela carrancudo para que se tocasse, sem sucesso. A jovem continuou absorta no aparelho como se estivesse só. Em certo momento fez mais: passou a digitar, obviamente para trocar mensagens com alguém de fora. Com muito esforço me contive e resolvi deixar pra lá.
No momento da premiação, entretanto, aconteceu a surpresa. Ela representava um dos premiados que mora em outro estado, e eu não sabia. Ao mencionarmos o participante, a garota subiu ao palco e recebeu medalha por ele, como fizeram os demais representantes que a antecederam.

Recebida a medalha, cumpriu-se o rito: ela posicionou-se junto ao microfone para ler o soneto de seu poeta ausente, e aí aconteceu a novidade: a jovem declamou lendo o poema “pelo celular”. Entendi tudo. Antes (confirmei mais  tarde), ela não tirava os olhos do aparelho porque tão logo começara a premiação percebeu que era praxe o representante declamar o soneto do premiado e ela não havia trazido o do seu. Rapidamente, então, entrou em contato com o poeta, pelo celular, e pediu-lhe o texto que lhe foi enviado de pronto pelo aplicativo de mensagens. Tão rápido que ainda houve tempo para que ela permanecesse em seu lugar lendo o soneto várias vezes para não declama-lo de primeira leitura o que prejudicaria a interpretação.

Mais símbolos

Deu certo. Ela foi destaque na noite do sarau pela interpretação perfeita da leitura e pela imagem agradável emprestada àquele momento. Vivemos a cena de uma jovem a ler para a plateia adulta do presente um soneto clássico, em formato do passado, por meio da tecnologia moderna, monitorada pelo autor à distância e amparada pela plateia presente. Era o não-tempo a serviço da arte literária.

Foi vivido naquela apresentação um contraste à Stanley Kubrick, que semelhantemente musicou a trilha sonora de “2001”, filme futurista, com a introdução de “Assim Falou Zaratustra”(música de 1896), de Richard, e com a valsa “Danúbio Azul” (1866), de Johann, ambos Strauss embora não-parentes. Kubrick é assim. Mescla tudo num universo único em que tempo não existe. No sarau, nem se percebia o aparelho na mão da adolescente no momento em que ela declamava. Jovens, adultos, celular, plateia, academia, jacareienses e jacarehyenses, tudo formava um todo em nome da poesia.
Enquanto os demais líamos textos impressos elaborados dias antes em antigas folhas de sulfite, alguns escritos rabiscados à mão, a adolescente fez a lição de casa valendo-se da tecnologia de ponta. E com a liberdade, que a juventude lhe permite, de simbolizar a marcha ininterrupta da humanidade anunciando que o futuro será feito ao jeito delas, humanidade e jovem.

Para terminar, no filme aqui mencionado aparece por três vezes um grande e enigmático monólito negro. A pedra gigantesca emite sinais de Júpiter. Percebe-se que a partir de cada aparição do objeto o mundo torna-se outro. Esse monólito pode ser interpretado como um marco de novas eras. Curiosa é a semelhança da peça de pedra a um celular comum hoje, tanto pelo formato delgado como pela cor escura. Claro que em miniatura, mas tamanho não é problema para a tecnologia. Os primeiros computadores mal cabiam em uma sala e agora...

Minha constatação não esgota o enigma do filme “2001”, mas pode revelar que o celular é a quarta fase do monólito negro. Quem duvida que o mundo a partir dele já se mostra outro?

sábado, 20 de agosto de 2016

Surrealismo? Só se for à brasileira


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Passei por uma cirurgia braba oito anos atrás; coração. Vou muito bem, obrigado, só relembro isto para justificar uma das tantas coisas marcantes que ficaram gravadas na minha memória sobre o período em que permaneci hospitalizado. Uma dessas lembranças é a da “presença do chinês baixinho”, que, diga-se, só ficou mais clara para mim neste sábado, 20 de agosto de 2016, no momento em que eu assistia ao programa “A Arte de Ver”, da TV Cultura.

Enquanto eu voltava à consciência aos poucos, na medida em que passava o efeito da anestesia geral, ainda no centro cirúrgico, eu comecei a observar uma figura curiosa ali entre os médicos e assistentes. Era um enfermeiro chinês (claro que com aquele chapéu tipo abajur virado) baixinho, vestido como os demais daquela sala e a quem todos tratavam muito mal. Chegavam a dar-lhe tapas na cabeça ao mandá-lo fazer as coisas: “pegue o bisturi agora! Sai da minha frente! Limpe essa mancha de sangue!” gritavam, sem poupá-lo fisicamente com empurrões ou qualquer outro gesto agressivo. Fiquei indignado a ponto de, ao ser removido para a UTI, mais ou menos uma hora depois, pedir a um de meus filhos que fosse reclamar à direção do hospital sobre aquele absurdo. Topei comprar uma briga.

Puro delírio. Embora para mim a visão do fato fosse muito nítida, obviamente não acontecera nada daquilo. Virou até piada no hospital durante o período de dois meses de recuperação em que lá permaneci, e não duvido que tenha se tornado case (exemplo) para futuras citações nas palestras de treinamento dos profissionais do hospital.
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Voltando ao “A Arte de Ver”, o programa tratou esta semana de uma escola de pintura do século passado chamada Dadaísmo, que depois gerou o Surrealismo. Assisti-lo mudou minha leitura de mundo, inclusive da situação atual do Brasil e de quebra meu delírio do enfermeiro chinês. 

Mostrou o programa que quando você não controla seu jeito de ser, outros o fazem por você e “em você” o que é muito mais grave. Não entendo porque um programa desse nível só é apresentado em horário absurdo (6 horas “da madrugada” de sábado). Nas chamadas da internet citam apenas o nome “A Arte de Ver” “de passagem”, sem muitos comentários, ficha técnica etc. Penso que é para ninguém desconfiar do “perigo que ele representa às instituições” para quem for capaz de vislumbrar um pouco mais além quando observa um quadro pintado em uma tela. Para piorar, o programa ensina, inclusive, como se faz essa leitura. Por essas razões, eu duvido que repitam a série quando terminar a atual. 

      Revoltado com os horrores da primeira guerra mundial (1914-1918) um grupo de artistas plásticos, escritores e poetas de várias nacionalidades fugiu para Zurique, na Suíça. Eles eram considerados traidores dos países em conflito por causa das críticas que faziam à guerra.  Por obra do acaso, vários deles encontraram-se em certo bar e acabaram por se tornarem amigos. Disto, surgiu a ideia de fundar uma escola de arte que tratasse de coisas que não tivessem qualquer sentido, uma vez que a guerra transformava o mundo em um lugar sem sentido algum, na visão deles. Mundo em que milhares de soldados viviam meses e até mais de ano nas trincheiras que os castigavam com doenças, fome e morte.  Para que? Pra nada. No máximo para conquistar um pedaço de terra menor que a metade do município de Jacareí, por exemplo. “Já que a vida não tem sentido, vamos fazer uma arte sem qualquer sentido, como essa vida”, diziam. E nasceu, assim, o Dadaísmo. Mas, por que razão estamos falando em Dadaísmo, afinal?! Por nada, uai, caso contrário não seria Dadaísmo.

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Brincadeirinha. O Dadaísmo mostra como a mente de pessoas e até de grupo de nações tem os mesmos delírios semelhantes ao que narro no início deste texto ao tentarem encontrar sentido em uma guerra que para homens sensatos nunca passou de pesadelo. Terminado o conflito, o movimento resolveu continuar, mas com uma diferença: Apesar dos mentores utilizarem na arte o mesmo princípio aleatórios do Dadaísmo, passaram a adotar um tema, um objetivo para oque faziam, já que, com o final da  guerra, o mundo voltou à busca de objetivos: nascia, então, o Surrealismo que teve como representante Salvador Dali, dentre outros. 

       O Surrealismo lida com figuras inteligíveis, porém colocadas de maneira desordenada, desarrumada num quadro ou num texto regidas por um tema central. Essas figuras passariam a ser compreensíveis, se por acaso fossem colocadas na devida ordem, dizem os especialistas. É como o Brasil de hoje. Figuras, pessoas, instituições, situações conhecidas foram colocadas em desordem e formaram Petrolão, Mensalão, Passadenão, Merendão, e escândalos que tais. 

Objetivo da bandidagem?! De acordo com o que aos poucos vem sendo comprovado, com o objetivo de consolidar planos de poder de uns e de enriquecimento rápido de outros, para dizer o mínimo. Isso, como já disse, me foi revelado pelo programa “A Arte de Ver”, que vi hoje na TV Cultura, além de outras dicas. Os defensores do Surrealismo explicam que basta arrumar a desarrumação que tudo volta ao seu lugar e passa a ser mais compreensível de novo (Não conte aos  senadores!). Acho que não desejamos isto para o país, a menos que seja um Surrealismo à brasileira: a arrumação sim, mas a “volta”, Deus nos livre.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Pai eu cresci. Obrigado!

     
                                          
  Geraldo José da Silva

Membro da Academia Jacarehyense de Letras


Pai, você é demais! Eu te acompanho desde que fui semeado. Oque você não sabe é que eu te aproximei da mamãe. Você se encantou com ela para juntos me trazerem ao mundo, não foi? Era tudo o que eu queria e escolhi vocês. Por que escolhi, não me lembro, mas não me arrependo.
Do que me lembro, vagamente, é que tanta gente vinha me visitar e fazia gracinhas para me ver sorrir. Não sei se fui simpático com todos, mas eu gostava. Só sei que você e mamãe ganhavam abraços e elogios.
Era só alegria? Não, nem sempre. Não quando eu não deixava vocês dormirem, tinha dor de barriga, sujava fraldas, queria mamar. Na realidade, acho que eu queria mesmo era chamar a atenção para mim.
E assim eu fui crescendo. Já experimentei tantas roupinhas engraçadas e tantos brinquedos diferentes. Você nunca descuidou de mim, mesmo nos seus horários de trabalho você telefonava para saber se eu estava bem.
E o batizado, que festa! As primeiras visitas ao médico e ao dentista para ver se estava tudo certo. Não, não me esqueci de nada. Muito menos dos aniversários em que você usava chapéu pierrô e soprava língua-de-sogra.
Você me levou no primeiro dia de escola. Ah! que “show” eu dei! Era a primeira separação entre nós. Mas você me convenceu, com bondade, de que seria bom para mim. E mesmo com a alegria do momento você chorou, porque sabia que nesse dia eu estava assumindo, pela primeira vez, o mundo das responsabilidades. Desde então já não estaríamos sempre juntos, mas lado a lado dividindo deveres e sucessos, como estamos hoje e como sempre estaremos.
Agora somos mais companheiros do que nunca. Um jovem que procura o seu lugar e um adulto que o orienta, cada um respeitando a individualidade do outro. Sei que um dia também vou ser pai e quero ser como você: honesto, amigo, leal, orientador, compreensivo e equilibrado. Quero ser o paizão como você é. O galã que a mamãe escolheu.
Pai, eu cresci. Obrigado! Recolhi de você cada gesto, cada sorriso e cada superação. Por isso, hoje, especialmente, quero te abraçar e dizer com orgulho, Feliz Dia dos Pais! Que Deus abençoe você e todos os pais que foram escolhidos para essa nobre missão e a realizam com dignidade.



segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Tempos difíceis, colegas, muito difíceis!

Conversa com meus colegas de academia
sobre um vizinho radical que detesta Debussy


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Helenita Scherma, como você sabe, moro num prédio de apartamentos em Jacareí situado em uma rua dia e noite movimentada e repleta de sons e imagens de cidade. O 4º andar não fica nas alturas, mas é suficiente para que se veja o rio Paraíba tranquilo e calmante em um de seus trechos que melhor sai nos selfies urbanos agora em moda; também inspiram imagens ingênuas para os pensamentos ilustrados com os quais Joana, Wener, Geraldo José e Salvador Cabrera nos desejam bom-dia.

Dá para se ver, Dinamara Osses, não muito distante, alguns detalhes da região central, tais como o tráfego intenso o tempo todo sobre a Ponte Nossa Senhora da Conceição, os novos edifícios que surgem ali e acolá e um pôr-do-sol cinematográfico pelos lados do Jardim Flórida. Esta imagem do crepúsculo vista de minha janela me faz imaginar, professor Bene, uma derradeira cena para minha vida: o Sol desaparecendo no horizonte para dar lugar à noite e, quando estiver escuro o suficiente, vai subir lentamente da margem direita do rio, na vertical em direção ao infinito, os créditos aos figurantes, roteiristas, extras, atores, figurinistas, diretores e todos os personagens, fixos ou eventuais, que formaram o elenco da minha existência: “Cast...” Coisas de cinema, à Rodrigo Romero. Se não for viável, contento-me com um telão gigante colocado, agora do outro lado do rio, com o nome e algumas fotos do elenco inspirado na abertura da Olimpíada Rio 2016. Diferente, não é verdade?

Há também os sons do daquele pedaço. Estes, infelizmente, descombinados com as imagens evocadas aqui e urgindo adaptações na trilha sonora: são carros que passam roncando exageradamente, aceleram e freiam barulhentos, é a galera do skate da praça ao lado que não se impõe horário, são os moradores de rua que se comunicam aos gritos e palavrões em plena madrugada (é a inclusão social, Rita Emília, fazer o quê?).

Existem, ainda, as ambulâncias de sirene aberta que sempre chegam à Santa Casa, gente que fala alto quando volta das baladas dos fins de semana, motos de escapamento aberto, igrejas que enviam preces ao Céu aos berros. Em épocas de chuvas, não faltam os eventuais “rugido dos ventos” e o “assovio da ventania” que faz bater portas e janelas dos prédios, “despenteia árvores” e assustaram Esther Rosado certa vez, conforme ela conta em sua última crônica de jornal. Enfim, Paulo Ramos, são barulhos, embora intensos às vezes, que estão incorporados à dita trilha sonora do “nosso filme”.

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Assim, Renata Bednarski, não só os moradores dos dois edifícios que formam o conjunto onde moro, mas de toda Jacareí já aprendemos, cada um a seu modo, a diminuir os efeitos dessa protofonia “urbano-afonsina”, “não é mesmo?!” (como diriam, pela ordem, José Luiz Bednarski e Wener). “É um dos preços que pagamos por estarmos vivos”, dirá Celso Abrahão quando voltar a dizer-nos coisas a nós da Academia Jacarehyense de Letras.

Pois, então. De minha parte, Salette Granato, quando necessito de um som mais adequado à beleza das citadas imagens do meu pedaço de chão (como diria Daniel de Castro), tento ouvir música suave ao piano com a qual busco neutralizar toda barulheira inoportuna e fazer uma ponte que vai da beleza romântica do céu avermelhado na “undécima hora do dia”, como disse o Geraldo, à selvageria do asfalto, com o digo eu. Minha predileta é “Clair de Lune” (Significa “luar”, em francês), da Suite Bergamasque, de Debussy, melodia que apesar do nome “metido a sabão”, é simples, linda e evocadora de uma tonificante paz (reproduzo um trecho de Clair de Lune ao final para você conferir, caso não a conheça).

Pois, não é que estava eu a ouvir a “citada cuja” quando um vizinho me toca a campainha do apartamento de modo acintoso e some pela escada de emergência antes que eu atenda para não se identificar. Ele protestava, só pode ser, contra o som que – confesso – deixei em volume acima (um pouco, só um pouco!) do normal; mas era Clair de Lune, poxa!


Claro que parei com a música. Voltou o som agressivo da rua mais a gosto do irmão troglodita. Fosse ele quem fosse não me interessou criar problemas com vizinhos, anônimos ou não. Cheguei a pensar que a questão era do repertório. Por um instante, tive o impulso de trocar a faixa do álbum pela sonata nº 8 em dó menor de Beethoven, outra delicadeza em forma de música, ou a Valsa nº 9 em Lá maior de Chopin, uma graça, mas me contive. Quem aperta campainha e foge ao som de Debussy não vai entender Beethoven ou Chopin. Correria eu o risco de que “a fera” chutasse minha porta ou se explodisse de “vizinho-bomba” no corredor. Tempos difíceis, Sandra Hassman! Eu hein?!