Dia destes conheci melhor Maria Aparecida Jacinto, Dona Cida Quituteira, como é tratada nos meios apreciadores da boa comida tradicional de Jacareí, (Vale do Paraíba) em São Paulo. Cida já preparou e serviu milhares de refeições, a maioria para membros de clubes de serviços, como Rotary, Lyons e Maçonaria. Quem desfruta a vida social jacareiense, é quase certo que já experimentou um de seus "acepipes", como costuma dizer o promotor de justiça local, José Luiz Bednarski, admirador da quituteira. E, para quem a experiência de fato aconteceu, com certeza a felizarda ou o felizardo repetiu o prato.
Cida há mais de 30 anos cozinha nesse agito local de reuniões semanais dos "rôtaris" de Jacareí e nesse período já surpreendeu o paladar de membros da maçonaria e de entidades filantrópicas semelhantes. Nunca se preocupou em saber quantos membros formam seus "admiradores" e, se o fizesse, com certeza teria perdido a conta, dada a agitação contínua que a atividade exige dela.
O INÍCIO
Tudo começou em 1972, ela com 13 anos, na cidade litorânea de Santos (SP) onde morou com uma prima. Aos 18, em 1977, voltou para Jacareí para uma colocação de trabalho intermediada por uma sobrinha. Era para cozinhar na então movimentada "Loja Bidu", hoje extinta, engolida que foi pelas grandes magazines que invadiram a cidade. Fazia café e almoço para os funcionários. Logo se tornou conhecida pela qualidade de seus preparados e, não demorou, foi convidada pelo médico Wandir Porcionato para cozinhar os jantares do Rotary Clube Jacareí às quintas-feiras.
Logo depois, com a inauguração do Rotary Jacareí Oeste, foi automático: passou também a atender o novo clube às terças-feiras, levada pelo médico Venceslau Miranda e pelo executivo Nestor Pelóggia. Com isso, são 32 anos diretos no Jacareí e no Oeste, mais as passagens, durantes períodos seguidos, pelos "rôtaris" Flórida, Três de Abril e Avareí.
MESTRE CUCA
Qual o segredo dessa preferência por sua cozinha? Modesta, ela diz que não existe prato seu mais elaboração que outro. Revela, porém, um segredo: seu "mestre cuca" e orientador para pratos refinados é o comerciante Flávio Esper com quem, diz, aprendeu muito e continua aprendendo: "ele sim, faz coisas especiais na cozinha", explica admirada.
Para ilustrar, conta que dia destes preparou o jantar da "Noite do Salmão" para 300 pessoas, que fez muito sucesso. Foi em benefício da casa de repouso para idosos "Amor e Caridade", em Jacareí mesmo. "Ficou na história", garante quem participou.
TECNOLOGIA
Mas, Dona Cida quer ir mais longe, Em abril de 2018 ela fez matrícula no básico do curso EJA (Educação para Jovens e Adultos) mantido pela secretaria de Educação local. "Eu preciso aprender esse negócio de mexer no computador porque se vou ficar para trás", diz ela preocupada em acompanhar o avanço da tecnologia.
Vai encarar novos desafios sem, claro, deixar o ramo de trabalho que lhe deu independência financeira, e com o qual formou seu filho em publicidade e marketing. Mas, segue sem pressa. Segundo seus admiradores, "para sorte nossa, computador nenhum no mundo vai conseguir, igual a ela, preparar um pintado cozido com mandioca ao molho de ervas", como se provou na terça-feira, 15 de maio de 2018. Uma data memorável para a gastronomia jacareiense. Sem exagero; sou testemunha.
domingo, 20 de maio de 2018
sábado, 6 de janeiro de 2018
HAIKAI "DOS MANO"
Para quem não conhece, Haikai é um poema de origem japonesa adaptada no Brasil em sua forma acadêmica pelo poeta Guilherme de Almeida.
Considerado um excelente exercício para sintetizar ideias e desenvolver a criação de pequenos textos com grandes significados, o Haikai brasileiro tem o formato:
Três versos com um total de 17 sílabas distribuídas assim:
_ _ _ _ _ ou seja, 5 sílabas no primeiro verso;
_ _ _ _ _ _ _ ou seja, 7 sílabas no segundo verso
_ _ _ _ _ novamente 5 sílabas, no último verso.
Existem, ainda, 4 sílabas que devem ter rimas entre si:
01 02 03 04 05
06 07 08 09 10 11 12
13 14 15 16 17
a sílaba 05 deve rimar com a sílaba 17 e
a sílaba 07 deve rimar com a sílaba 12.
Lembre-se de que ao final de cada verso, para efeito de contagem, são lconsideradas apenas as sílabas tônicas (aquela que é acentuada, levando ou não acento gráfico), as chamadas "sílabas poéticas".
Por exemplo:
Veja o prefeito (A quinta sílaba é fei; o to não conta):
Põe fé: pré-feito, não é
Nem mesmo perfeito (A quinta sílaba é fei; o to não conta).
Agora, leia o Haikai dos mano, sem ajuda das cores nem dos números:
Pra saí co a "mina",
Ó mano, tô "precisano"
"Ganhá" na quina.
--------------
MORAL DA COISA:
Com pouco de prática
Você passa a crer:
Versos e matemática. Têm tudo a ver!
Versos e matemática. Têm tudo a ver!
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Esquecidos domésticos, uni-vos!
Atravessou a área de serviço e veio em minha direção de cara fechada tão logo tirou a última peça de roupa da máquina de lavar. Alzira exibia na mão uma pequena moeda prateada de 50 centavos e esforçava-se para que o objeto não ficasse encoberto pela montanha de roupa umedecida que ela transportava ao mesmo tempo.
– O senhor deixou outra vez moeda no bolso da calça jeans,
que ficou entalada no batedor da máquina, seu Veloso; qualquer hora vai travar
tudo – disse Alzira com aquela autoridade profissional que os mais de dez anos
como diarista na minha casa lhe permitem.
– Está bem, me desculpe, vou tomar mais cuidado – disse-lhe
eu sem esconder o desconforto de ser flagrado em mais um dos crimes domésticos que
estão sendo cada vez mais praticados por mim de uns tempos para cá.
Depois de sentir o efeito que me causou sua descoberta,
Alzira mudou a voz para uma tonalidade mais maternal:
– Sabe, né? Por mim tudo bem; é que não fica nada barato ter de consertar a
máquina, caso ela se quebre. E quem vai gastar dinheiro com o conserto é o senhor mesmo, não é? – disse, e voltou a carregar na voz para completar: se bem que a máquina parada vai atrapalhar toda minha programação de serviço!
Tratei de me afastar logo dali porque a introdução indicava que o assunto iria render
uns bocados de minutos, como sempre acontece quando sou flagrado nesses esquecimentos.
HORA DE REAGIR
O que me aborrece é que a cada dia mais me convenço de que as pessoas
esperam – ao contrário da realidade – que um homem torne-se perfeito com o passar do tempo. Se eu fosse 25
anos mais jovem esse achado provavelmente nem chegaria ao meu conhecimento. Entendem que alguém nessa idade quando esquece coisas é por "excesso de problemas no trabalho" e sabem que nem adianta tentar corrigir a pessoa.
Há cerca de uma semana, uma colega minha, de seus
30 anos, teve um esquecimento semelhante. Ela deixou o celular novinho no bolso da calça jeans que foi parar,
sem ser visto, na máquina de lavar roupas lá dela. O aparelho foi chacoalhado à
exaustão naquele mar de “OMO”, rodopiou por várias vezes por cerca de quinze
minutos cada, e só depois de enxaguado e devidamente centrifugado foi que a Constância
– a moça que trabalha pra ela – percebeu o desastre:
– Dona Salete! a senhora esqueceu o
celular no bolso da calça e ele foi lavado junto com as roupas! – gritou Constância
para minha amiga que estava em outro cômodo da casa.
– E será que ele está funcionando? – gritou outra voz de lá de dentro mais por curiosidade que por lamentação.
– Acho que vai acontecer igual ao meu que uma vez também caiu na
máquina: não vai funcionar nunca mais! Porém, está limpinho e cheirando a “Confort”! –
gritou de novo a serviçal.
Viu a diferença? A visão de mundo da Constância? Acima de tudo experiente e, por isto, compreensiva para com jovens maduras ocupadas. Eu que já
passei dos 70 esqueço uma moeda de 50 centavos na roupa e parece que cometi um
crime. Quando eu conto o ocorrido para alguém, todos me olham como se estivessem duvidando de minha sanidade mental. Já minha colega, de 30 anos de idade, detona um celular de
R$ 1,2 mil, com dois dias de uso e ninguém questiona o ocorrido?!
Estamos no final dos tempos. É hora de reagir: Cadê meu “Estatuto do idoso”?
sábado, 30 de dezembro de 2017
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
O lado positivo da corrupção
Também fiquei um tanto chocado, quanto você ficou agora, quando eu soube
do título que meu admirado amigo psicólogo, Plínio Garcia, daria para seu livro
de estreia na literatura jacareiense: O lado positivo da Aids, lançado em 2011,
que hoje me inspirou este artigo.
Imito o título com a intenção de atrair você para a leitura, coisa
que não está fácil conseguir nestes tempos de chuvas de escritos em redes
sociais. O tema que desenvolvo perde longe para o do livro de Plínio, salvo pequenas
semelhanças estruturais. Mas, é motivo de esperança ver que dá para aprender
com surras que a vida nos aplica quando acha que precisamos delas.
Minha comparação, explico, perde para o tema usado pelo psicólogo no
livro principalmente por ele demonstrar que a síndrome Aids, quando encarada de
frente pelo portador do vírus HIV, é controlável. Já a corrupção – nunca ficou
tão claro como nos dias de hoje – mostra-se dura na queda: os envolvidos em
mazelas jamais se considerarem corruptos. Algumas vezes chegam até a gastar
mais do que pilharam para provar não terem agido como as provas e as evidências
mostram a quem quiser ver. Este é o principal obstáculo.
“ALELUIA!”
Em artigo publicado na Folha de
São Paulo, quarta-feira, 27, intitulado Conselhos
sem moral (Ilustrada pág. C8), o colunista Marcelo Coelho comenta estatística
editorial da Amazon brasileira. Segundo os números mostram, o livro Como fazer amigos e influenciar pessoas,
do escritor norte-americano Dale Carnegie (1888-1955), publicado em 1937, foi o
livro mais vendido de 2017, só pela Amazon – somando impresso e digital –, o
que deixa para trás, com tremenda folga, medalhões como Dan Brown, John Grisham
e Paulo Coelho.
^^^Marcelo Coelho, colunista da Folha de São Paulo
^^^Marcelo Coelho, colunista da Folha de São Paulo
Por causa dessa façanha, a Folha
deu a ela quase metade da última página do caderno Ilustrada, – espaço considerado nobre pelas editorias de jornal. E
isto, por si só, é tido como outra façanha, porque o jornal dificilmente abre
espaço para um livro de psicologia aplicada como o assunto era classificado na época (anos mais tarde foi apelidado de “autoajuda”).
Articulistas e críticos do jornal, em sua quase totalidade, sempre torceram o
nariz só de ouvir a menção tanto aos títulos desse gênero quanto à classificação
sistemática das obras, a tal autoajuda.
Sinal dos tempos. Para você ter uma ideia, em 2007, Como fazer amigos e influenciar pessoas já estava na 51ª edição e havia
vendido mais de 50 milhões de exemplares pelo mundo. A estatística da Amazon,
dez anos depois, ao mostrar o desempenho editorial do livro foi decisiva para
amenizar a aparente birra da Folha para com livros de autoajuda. Tanto que abriu cinco grandes colunas para Marcelo Coelho (com ilustração de Lulli Penna) falar de uma obra
escrita há exatos 80 anos e que ainda é show de bola.
^^^Um dos livros mais vendidos no mundo
^^^Um dos livros mais vendidos no mundo
Alvíssaras! exclamaria um jornalista de 1937, época em que saiu a
primeira edição do livro, exclamação que aplaude uma boa notícia publicada e
pede um prêmio para ela (dicionário
Priberam da língua portuguesa). Prêmios, no caso, já entregues, pois se somarmos os quase
100 milhões de exemplares do livro vendidos até hoje; a Marcelo Coelho ter lido a
obra (mesmo que tenha sido só para comentá-la) e a Folha ter aberto o espaço Dale Carnegie pode descansar em paz que já foi consolidadamente reconhecido.
MAS, E A CORRUPÇÃO?!
Assim como o livro do meu amigo Plínio registra que a Aids tem seu lado
positivo quanto à meta da transformação humana (entre a
população doente e a não infectada) com a mudança de hábitos, conceitos e visão sociais), a
corrupção tem seu lado positivo. Isto quando (e se) aprendermos que a sociedade não pode
descuidar um minuto dos comportamentos e ações de seus governantes. Nunca. Sempre quando nos mostrar o quanto
erramos ao assinar, às vezes por pura negligência, verdadeiros cheques em branco para cidadãos que nos prometem
mundos e fundos e nos esquecem já no dia seguinte em que os elegemos.
O livro de Dale Carnegie tem, de fato, mudado a vida de muita gente
nestes exatos 80 anos de sua primeira publicação, mas tem também gerado muita
polêmica sincera, caluniosa ou de preconceito. Preconceituosa quando considera os preceitos ensinados por ele como sendo, no mínimo matéria de uma “escola de
hipocrisia”, o que é injusto.
Não dá para ver hipocrisia em aconselhar você a interessar-se com
sinceridade pelas pessoas com quem se relaciona, a ouvir atentamente o que elas dizem e a não
magoá-las de modo nenhum a começar por críticas desnecessárias, enfim, não espantar as abelhas se quiser
colher mel. Cito apenas quatro dicas das dezenas que Carnegie ensina e as exemplifica à exaustão.
UMA PENA
Tais preceitos podem ser mal interpretados ou tornarem-se perigosos se aplicados por alguém
de inteligência torta voltada para o mal. É um risco que corremos sempre em quaisquer situações do cotidiano, porém que não invalida o esforço quase doutrinário do autor. Dale Carnegie
estava empenhado no início do século
passado em transformar para melhor o relacionamento entre milhões de pessoas machucadas por incertezas de todos os tipos. Lembre-se
que estávamos às vésperas da Segunda Guerra Mundial e o mundo mostrava-se como
nunca um lugar difícil e perigoso para se viver.
Carnegie previu isso e colocou-se a campo. Percebe-se logo na introdução do livro pela maneira
segura e quase impositiva que ele encarou a empreitada. Porém, como nada é perfeito, no caso da
corrupção, ele talvez tenha cometido um engano técnico considerável ao
distribuir as matérias nas cerca de 300 páginas de Como fazer amigos e influenciar pessoas: apresentou um de seus conceitos básicos que muito contribuiria no lidar com os corruptos (embora isto não esteja mencionado objetivamente no texto), logo nas 15 páginas iniciais
do livro.
Nesse primeiro momento, o leitor ainda não está preparado para receber os novos 'modelos de ser' para que mude seu comportamento de forma (às vezes) radical. E trata-se de um conceito muito simples, porém, como em muitos de nós pode significar mudança de um comportamento quase sempre enraizado por anos e anos, um preceito tão simples transforma-se quase em sacrifício.
Para mim, o livro deveria começar na parte II e depois continuar pelas partes I, III etc. Prepararia mais o leitor interessado numa compensadora e nova forma de viver. Uma pena.
Nesse primeiro momento, o leitor ainda não está preparado para receber os novos 'modelos de ser' para que mude seu comportamento de forma (às vezes) radical. E trata-se de um conceito muito simples, porém, como em muitos de nós pode significar mudança de um comportamento quase sempre enraizado por anos e anos, um preceito tão simples transforma-se quase em sacrifício.
Para mim, o livro deveria começar na parte II e depois continuar pelas partes I, III etc. Prepararia mais o leitor interessado numa compensadora e nova forma de viver. Uma pena.
Contato: bvelosomc@gmail.com
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
Os Três Reis Magos e o menino
Conto de Natal de Ludmila Saharov
Certa noite, há muito, muito tempo atrás, numa terra bem distante, três reis caminhavam no deserto, seguindo uma estrela.
Na verdade, eles não deviam ser reis. Reis não caminham no deserto. Reis viajam em carruagens, ou em garbosos cavalos, acompanhados por um séquito de vassalos. E, também, guiam-se por mapas desenhados em velhos pergaminhos. Nunca por estrelas.
Quem seriam esses personagens então?
Talvez fossem magos!
Mas, o que três magos fariam no meio do deserto? Se eram magos, não precisariam guiar-se por estrelas... no mínimo teriam uma varinha encantada, ou bola de cristal a lhes indicar o caminho, ou mesmo um falcão com olhar que tudo vê...
Ah! Esses homens, então, deviam ser Sábios. Naquele tempo antigo, só os homens sábios poderiam guiar-se por uma estrela. Por quê?
Porque eles sabiam ler o céu e conversar com as estrelas.
E o céu lhes contou que, por aqueles dias, nasceria uma criança que seria muito amada por ricos e pobres, homens e mulheres, jovens e velhos, e que seria conhecida no mundo inteiro como “o rei dos reis.”
E o céu lhes contou também, que, perto do dia de seu nascimento, uma estrela enorme brilharia no céu para indicar-lhes a senda.
Assim partiram os sábios, de seus distantes e exóticos países, em busca da criança e da estrela, e se encontraram pelo caminho.
"Onde você acha que esse rei nascerá?", perguntou Gaspar, o sábio que vinha da Índia, e levava de presente para o pequeno rei, um receptáculo, cheio de precioso incenso, como prova de sua adoração.
"Em algum palácio, no deserto", ponderou Baltazar, que vinha da Arábia, trazendo num vaso de cristal, a perfumada mirra, simbolizando a imortalidade.
"Mas eu já andei tanto por aqui e nunca soube de nenhum palácio nas redondezas", retrucou Melchior, que estava vindo desde a longínqua Pérsia, e trazia de presente para o menino, o mais puro ouro, em homenagem à sua realeza. "Mas, o céu nunca nos enganou antes, então, continuemos a viagem até que a estrela apareça e nos guie ao local secreto".
E assim os Sábios viajaram muito tempo pelo deserto, montados em seus dromedários, em busca do menino rei. À noite, acomodavam-se sobre seus tapetes coloridos, debaixo do céu estrelado, e comiam tâmaras com mel, e nozes. Quando encontravam algum oásis, aproveitavam para deitar-se à sombra das palmeiras, desatrelar os animais, recolher água em seus cantis e refrescar o corpo nas nascentes.
E conversavam... conversavam... cada qual se vangloriando das belezas de seu país, e fazendo conjecturas sobre os reais pais da criança. Seriam nobres hebreus? Seriam romanos?
Finalmente, numa noite de céu sem nuvens, viram brilhar a estrela guia. Sua luminosidade era tão intensa, que desenhava no chão de areia uma estrada de luz.
"Finalmente!" exclamaram em uníssono e puseram-se em marcha. Caminharam a noite inteira, e, já com os primeiros raios da manhã, chegaram a um estábulo. Olharam para o céu... a estrela desaparecera.
De onde então vinha tanta luz?
Aproximaram-se da tosca construção, e lá, deitada numa manjedoura, transformada em berço, estava a criança. E brilhava... e brilhava tanto, que os magos ajoelharam-se para adorá-la. E havia vacas, cães, ovelhas e pastores, e também um pequeno burrinho à sua volta, apaixonados por aquele bebezinho que emitia tanta luz. E, ao seu lado, uma jovem mulher, em trajes muito simples: uma veste branca, de linho, encimada por um manto azul, e um homem de mais idade, apoiado num cajado, amparando-a com o braço livre.
Ninguém pediu explicações. Ninguém emitiu um único som, para não assustar o recém nascido, que, com sorriso aberto no rosto, dormia feliz em meio às palhas e aos panos.
(Ludmila Saharovsky)
Escritora, artista plástica,
mora em Jacareí - SP
Escritora, artista plástica,
mora em Jacareí - SP
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
Samuel e os doutores da Lei
A coincidência dos fatos aqui
descritos é apenas curiosidade, embora haja a crença de que “o dia-a-dia também
nos conta histórias”. Quem tiver “olhos para ouvir, leia” diria o poeta
surrealista; porém, prefiro acreditar na obra do acaso; a vida já é complicada
o suficiente para que eu tome seu tempo semeando confusão.
Aconteceu em 17 deste dezembro, uma linda
tarde ensolarada de domingo, quando a Academia Jacarehyense de Letras realizou
festa de confraternização. O local foi o recanto paradisíaco do casal Sandra e
Ronald, em Santa Branca, no limite com Jacareí demarcado ali pelo Rio Paraíba
do Sul. Sandra, uma de nossas acadêmicas, ofereceu-nos graciosamente a casa
ribeirinha para o evento. ‘Graciosamente’ é pouco; no 'pacote' vieram bolo,
bolinhos, biscoitos, salgados de forno, quitutes e que tais. Sem falar numa
chopeira exclusiva na qual nos servíamos à vontade.
MOMENTO DE 'JOGAR CONVERSA FORA'
A certa altura, elegemos um
ponto estratégico da ampla varanda em “L”, com vista para o rio, a fim de
trocarmos impressões sobre o local. Depois, a conversa enveredou para outros
temas inspirados na beleza do cenário. O Paraíba ali se desenha bucólico em
suave “S” – coisa linda de se ver. O “L” da varanda e o “S” do rio deram o
toque literário apropriado.
Estávamos em um grupo de oito
escritores. Havia ainda professor, jornalistas e um advogado famoso na região,
Dr. Maurício, respeitado por todos pela reputação profissional, lucidez e
energia que dele emanavam aos 85 anos. Claro que Maurício dominava nossas
atenções até pela vivência que demonstrava nas narrativas tanto jurídicas
quanto da história da cidade. As idades dos demais participantes estavam acima
dos 45, exceto a do jovem Samuel, filho de Salette, de 13 anos.
VELHO MUNDO QUE SE REPETE
Eu havia me retirado da varanda por cerca de
15 minutos e quando retornei tive uma surpresa. Quem conduzia a conversa
naquele momento não era mais o sábio advogado veterano, e sim o menino Samuel
para o qual todos olhavam atentos com admiração e faziam perguntas sobre o que
ele explicava. Inclusive o Dr. Maurício. A todos, Samuel respondia com firmeza
e tranquilidade incomuns para alguém de apenas 13 anos.
O tema da conversa era outro.
Falava-se de jogos eletrônicos para computador, das características e
respectivas tecnologias, assunto, diga-se, 'indiscorrível' para quem já passou
dos 40. Salvou-nos o professor Mário, que durante um bom tempo deu aulas de
Tecnologia da Informação na Univap (Universidade do Vale do Paraíba). Mário foi
nosso mediador improvisado, que também explicou-nos palavras que, para muitos
(nos quais me incluo), soavam estranhas, tipo “cheat, gamers, cutscenes, let’s
play, skin, speedrum”, e tantas outras que ele nos explicava como podia para
que entendêssemos como desse.
CLIMA DE NATAL
Já estávamos em clima de Natal e, talvez por
isso, me veio à mente um dos poucos episódios da Escritura Sagrada que relatam
a infância de Jesus de Nazaré. Está registrado no capítulo 2º do evangelho de
Lucas: Levado pelos pais, José e Maria, que haviam participado da confraternização
da Páscoa em Jerusalém, como era de hábito naquele tempo, o menino Jesus, então
com quase a idade do nosso Samuel, 12 anos, não estava com os demais na
caravana que retornava para Nazaré, já na saída de Jerusalém.
Depois de voltarem para
procurar Jesus, encontraram-no falando aos doutores da Lei, no templo. O menino
respondia a perguntas sobre as Escrituras, de modo semelhante ao que Samuel
explicava, em Santa Branca, 'games eletrônicos' aos doutores de outras leis. E,
igual aos de Jerusalém, os 'doutores' de Jacareí também se admiravam do que
falava o jovem Samuel, 2 mil anos depois no moderno ‘templo de amor fraterno'
disponibilizado aos acadêmicos pelos anfitriões.
Notava-se nas expressões do Dr. Maurício,
Geraldo, Paulo, Mário, Waldir, Cristina, Sandra, Dinamara e outros que estavam
ao redor que algo neles havia mudado; no mínimo o conceito sobre o ‘poder’ que
jovens inteligentes exercem sobre nós adultos sempre que lhes abramos
oportunidades –, melhor dizendo, 'abramos nossos ouvidos', no caso.
QUESTÃO DE TEMPO, TEMA E LUGAR
Você deve estar perguntando "o que tem um
fato a ver com aquele outro?!"
Sem situar cada história no seu devido tempo, espaço e contexto, nada. Porém,
se olharmos para dentro de nós em reflexão, tudo. Naqueles momentos mágicos,
dois habitantes da terra demonstraram o potencial da inteligência humana.
Valeram-se, para isso, da capacidade que todos herdamos do Criador para,
explicar, realizar, criar e usufruir do que melhor nos inspira.
O restante, como o tema, o tempo e o lugar servem para nos dar referencias, mas
é sempre a inteligência humana a que provoca as admirações.
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Em Santa Branca, a exuberância da natureza ao redor emoldurava o cenário para valorizar ainda mais a gentileza com que fomos agraciados por Sandra e o Ronald. Em Jerusalém, a missão do Deus menino foi anunciar para que todos preparassem o melhor de si para o que ainda viria séculos a fora.
Quanto aos temas desenvolvidos pelos protagonistas das histórias, são bons, mas nada mais são que temas que podem a qualquer instante ser superados -- como a maioria o é. Porém, a inteligência que os gera é o que conta. Tanto assim, que hoje (voltemos para Santa Branca), pouco tempo depois, nos lembramos mais das pessoas que ali estavam do que os detalhes dos casos ali discutidos.
Em Santa Branca, a exuberância da natureza ao redor emoldurava o cenário para valorizar ainda mais a gentileza com que fomos agraciados por Sandra e o Ronald. Em Jerusalém, a missão do Deus menino foi anunciar para que todos preparassem o melhor de si para o que ainda viria séculos a fora.
Quanto aos temas desenvolvidos pelos protagonistas das histórias, são bons, mas nada mais são que temas que podem a qualquer instante ser superados -- como a maioria o é. Porém, a inteligência que os gera é o que conta. Tanto assim, que hoje (voltemos para Santa Branca), pouco tempo depois, nos lembramos mais das pessoas que ali estavam do que os detalhes dos casos ali discutidos.
Da varanda em "L" vê-se o rio em uma curva em "S"
Em Santa Branca, Jerusalém ou nos incontáveis pontos de acontecimentos semelhantes que mudaram e continuarão a mudar o mundo; sempre as ações humanas é que potencializam a capacidade criadora e imaginativa da mulher e do homem. São amostras constantes a valorizar o que está dentro de nós desde o primeiro ser humano. Como se fossem lembretes divinos de que somos uma grande força criadora.
Talvez tenhamos vivido naquela confraternização de domingo em Santa Branca não uma, porém várias confraternizações: a da experiência jovem com a madura; a do Novo com o Velho Testamento e tantas outras não aparentes, porém não menos maravilhosas que ainda descobriremos.
Em Santa Branca, Jerusalém ou nos incontáveis pontos de acontecimentos semelhantes que mudaram e continuarão a mudar o mundo; sempre as ações humanas é que potencializam a capacidade criadora e imaginativa da mulher e do homem. São amostras constantes a valorizar o que está dentro de nós desde o primeiro ser humano. Como se fossem lembretes divinos de que somos uma grande força criadora.
Talvez tenhamos vivido naquela confraternização de domingo em Santa Branca não uma, porém várias confraternizações: a da experiência jovem com a madura; a do Novo com o Velho Testamento e tantas outras não aparentes, porém não menos maravilhosas que ainda descobriremos.
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